
Resumo
Este artigo apresenta evidências dos fundamentos neurobiológicos e evolucionários da música e suas
implicações terapêuticas. Primeiro, a música é um comportamento universal, presente em toda cultura.
Segundo, apesar de evidências de alguns mecanismos músico-específicos, estudos de lesão e de neuroimagem revelam que a música é também altamente supramodal e interage com múltiplos domínios
cerebrais, recrutando ativação bilateral em regiões envolvidas com o processamento linguístico, motor e
espacial. Terceiro, os padrões básicos de organização melódica e temporal da música são compartilhados
entre as culturas, uma propriedade análoga às regras universais da sintaxe compartilhadas por diferentes
línguas. Quarto, as respostas dos ouvintes à música também são universais através das culturas. Quinto,
estudos de neurodesenvolvimento mostram que bebês processam padrões musicais semelhantemente
aos adultos, fornecendo evidências de mecanismos transcendentes à cultura. Sexto, a música evoca
emoções genuínas e fortes, ativando estruturas cerebrais filogeneticamente antigas do sistema límbico.
Finalmente, consideramos uma redefinição da música como uma forma de comunicação baseada no som,
corporificada, não-referencial e polissêmica, cujo conteúdo é essencialmente emocional. Como a música
ativa áreas cerebrais envolvidas no processamento linguístico, espacial, motor e emocional básico, induzindo neuroplasticidade, ela representa uma possibilidade terapêutica de baixo risco e de baixo custo.
Palavras-chave: música, cognição, neurodesenvolvimento, emoção.

Paulo Estevão Andrade: Professor de musicalização no Colégio Criativo de Marília, São Paulo e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Neurociências e Comportamento “Memória, Plasticidade, Envelhecimento e Qualidade de Vida” da Faculdade de Filosofia e Ciências – UNESP – Campus de Marília,
Elisabete Castelon Konkiewitz: Médica neurologista e psiquiatra, professora adjunta da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Grande Dourados
