
Maguire, M. J. Music and epilepsy: A critical review, Department of Neurology, United Kingdom. Mar, 2012.
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1528-1167.2012.03523.x/pdf
Nota editorial (2026-10-03): resenha de 2013 de Maguire (2012). Benefícios cognitivos ou anticonvulsivantes não são universais, e música também pode desencadear crises em casos específicos. Cinema e metáforas são ilustrações e opinião do autor; não provas clínicas. Foram delimitados o chamado efeito Mozart, alegações de idade fixa para ouvido absoluto e a interpretação de um estudo de música familiar em Alzheimer.
Para uma boa compreensão do artigo é necessária uma breve explicação sobre os elementos musicais. A música é composta por três elementos básicos: Harmonia, Melodia e Ritmo. Harmonia é o conjunto agradável de notas musicais (acordes, exemplo violão), melodia são notas tocadas separadamente (piano, sax, voz) e ritmo é a noção métrica-temporal da música (batida, exemplo bateria). Feito isso, daremos introdução à resenha do artigo em questão.
O processamento musical envolve 3 etapas: percepção musical, reconhecimento e emoção. Córtex auditivo primário e o giro temporal superior são áreas responsáveis pela percepção musical. O córtex primário é sensível à percepção do tom, enquanto o de associação auditiva é sensível aos processamentos mais complexos lineares como a melodia e não lineares como a Harmonia. O ritmo é processado no cerebelo, nos gânglios basais e nos lobos temporais superiores. O reconhecimento musical e a emoção envolvem o orbito-frontal e o sistema límbico, eles estão envolvidos com a memória musical e com as emoções ligadas à música.

O córtex auditivo primário recebe os aferentes talâmicos do núcleo geniculado medial, que por sua vez se conecta por meio de redes com o córtex de associação auditiva, sistemas mesolímbico e outros córtices multissensoriais. A música ativa muitas áreas cerebrais e isso pode se tornar um problema para algumas pessoas. A epilepsia musicogênica é um desses problemas, um tipo raro de epilepsia onde as crises são desencadeadas por um estilo musical, nota musical, som instrumental ou até mesmo por um específico cantor. Uma análise relatou 110 casos entre 1884 e 2007, em 60 pacientes submetidos a exames de eletroencefalografia (EEG) tiveram predomínio de atividade do lado direito e por meio de tomografias computadorizadas por emissão de fótons, indicaram uma prevalência de 6 casos onde o temporal direito tem anormalidades. Dessa forma, acredita-se que a emoção desencadeada pela música dispara os ataques epilépticos e não a música em si. Entretanto, existem casos relatados em crianças de 6 meses de idade e isso acaba por abalar essa teoria.
Outros distúrbios relacionados com a música são as Alucinações Musicais (Caracterizam-se pela audição de melodias, harmonias ou ritmos com um ou mais timbres instrumentais ou vocais, na ausência de um estímulo exterior correspondente), Amusia (incapacidade de captar os sons musicais, de lembrar-se de uma melodia) e musicofilia (obtenção enorme de prazer por meio da música).

O chamado “efeito Mozart” foi associado a um relato de melhora temporária em tarefas de raciocínio espacial após a audição de música, publicado por Rauscher e colaboradores em 1993; isso não comprova aumento geral ou permanente da inteligência. Outros experimentos investigaram desempenho espacial em ratos, quando expostos à sonata na vida uterina ou quando recém nascidos, obtinham maior desempenho ao se orientarem no labirinto em T, diferentemente dos que não eram expostos.
A música possui um alto potencial terapêutico ainda não conhecido em sua totalidade por conta da falta de estudos na área da musicoterapia. Essa ciência já foi usada para melhoras cognitivas em doenças como Parkinson, demência senil e hiperatividade. Um pequeno estudo observacional com 11 crianças relatou redução de crises durante a exposição à Sonata K.448; o achado é preliminar e não comprova eficácia terapêutica. O estudo comparou as crises 6 meses antes do tratamento e 6 meses durante a exposição. Foi relatado que 73% das crianças obtiveram uma melhora de 50% nas crises e em 2 pacientes a inexistência de crises durante o tratamento. A música pode envolver sistemas de recompensa e sinalização dopaminérgica; isso não implica “inundação” dos receptores D2 ou mecanismo anticonvulsivante demonstrado. Em pacientes com epilepsia do lobo temporal, um possível efeito anticonvulsivante mediado por dopamina é uma hipótese. Nota editorial (2026-10-03): segundo a revisão de Maguire de 2012, os resultados terapêuticos permaneciam controversos e exigiam mais pesquisa. O piloto descrito e a hipótese mecanística não estabelecem eficácia nem substituem o tratamento da epilepsia.

Apesar de todos os efeitos positivos da música, já foram constatados muitos efeitos negativos, dentre eles o potencial de convulsividade, podendo aumentar as crises epilépticas em certas pessoas. Um estudo de 2013 explorou música familiar e autoconsciência em pessoas com Alzheimer. Houve diferenças entre os grupos, mas os autores não puderam atribuir a piora do grupo com música desconhecida à intervenção, ao curso da doença ou a outros fatores. Em situações de perda de memória, intervenções com música podem ser exploradas como complemento, conforme a causa e a avaliação individual, sem garantia de recuperar a memória.

A música está presente em nosso cotidiano influenciando nosso comportamento seja em uma loja ou em um elevador onde não vemos o tempo passar, em uma festa ou em qualquer lugar onde esteja, participando na interligação de memórias de situações passadas e na construção de novas memórias. Uma arte milenar que não deve ser vista apenas como arte, mas sim como ciência. Os estudos já provaram o poder que a música exerce sobre quem ouve e quem pratica. Temos que aprofundar os estudos nessa ciência para descobrirmos a forma certa de utilizá-la para fins terapêuticos.
Kaique Miranda e Silva, natural de Morrinhos-Go, 24 de fevereiro de 1993. Estudante da Universidade Federal de Grande Dourados matriculado no curso de Medicina da XIV Turma, bolsista do programa Jovens Talentos.
Referências
Klut, C. Xavier, S. Graça, J. Cardoso, G. Musical Hallucinations and Schizophrenia: Case Report
Schulze, K. Tillmann, B. Working memory for pitch, timbre, and words. Memory, 2013.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23116413
Arroyo-Anlló, E.M. Díaz J.P. Gil, R. Familiar music as an enhancer of self-consciousness in patients with Alzheimer’s disease. Set, 2013.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24106716
Bennett, R. Uma breve história da música. Editora Zahar, 2004.

