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Integrando as ciências da mente, cérebro e educação

Pintura de duas figuras aladas pequenas apoiadas sobre uma mureta.

Nota editorial (2026-10-03): excertos de um capítulo de 2014, publicados nesta página em 2017. Modelos e hipóteses permanecem atribuídos à autora; as precisões abaixo sobre genética são editoriais. Percentuais de herdabilidade descrevem variação em uma população e contexto, não a parcela da inteligência de uma pessoa determinada pelos genes ou um destino imutável. O capítulo integral não está reproduzido.

“Neurobiologia da inteligência” (trechos), por Elisabete Castelon Konkiewitz. In: Altas habilidades/superdotação, inteligência e criatividade – Angela M. R. Virgolim, Elisabete Castelon Konkiewitz (orgs.)-editora Papirus – 2014.Pintura de duas figuras aladas pequenas apoiadas sobre uma mureta.

 

“Capítulo 2

Neurobiologia da inteligência – um desafio às Neurociências: Circuitos cerebrais associados ao processamento intelectual, funções executivas, neuroplasticidade, interação gene-ambiente e epigenética

Elisabete Castelon Konkiewitz 

Introdução 

O que faz com que as pessoas possam aprender novas habilidades e conceitos? Por que as pessoas diferem na sua capacidade de abstração e raciocínio? Quais as relações entre a inteligência e a criatividade e entre a inteligência e as emoções? Quais as áreas cerebrais associadas ao desempenho intelectual? Até que ponto a inteligência é determinada pelos genes herdados dos pais? Existe um gene da inteligência? As experiências da infância influenciam o desenvolvimento cognitivo? Até que ponto a inteligência pode ser aprimorada?

Estas e outras questões serão discutidas neste texto à luz dos recentes avanços nas Neurociências, cujo desenvolvimento tem contribuído para a compreensão da complexidade da mente e da diversidade da inteligência.

As Neurociências representam o esforço conjunto de diversas disciplinas em compreender os processos mentais, seus circuitos neurais subjacentes, seus substratos biomoleculares e genéticos e a interação dos mesmos com fatores ambientais e culturais.  Sendo assim, dados de neuroimagem cerebral, conceitos da psicologia cognitiva e da genética serão correlacionados com as abordagens generalistas e sistêmicas da inteligência e com os paradigmas atuais de explicação da cognição humana.

O texto deixa claras as controvérsias e incertezas sobre o assunto, ao mesmo tempo em que aponta para possíveis conclusões.

Como já discutido no capítulo anterior, houve ao longo da história da filosofia e da psicologia diversas conceituações de inteligência. No contexto presente, consideraremos que estas conceituações podem ser divididas em duas correntes básicas: a) a abordagem generalista, que propõe  a existência de um fator geral ou g, designado como inteligência geral, subjacente a toda atividade intelectiva (Spearman, 1904). Este fator seria universal, independente do momento histórico, do grupo estudado, da sua localização geográfica e do seu contexto cultural, sendo um marcador da capacidade energética mental inata e que pode ser mensurado através de testes psicométricos; b) a abordagem integrativa que sugere uma visão crítica ao fator g e aos testes psicométricos pelo seu reducionismo, formula a cognição como sendo de natureza múltipla e modular com domínios de funcionamento relativamente diferenciados, enfoca o caráter individual e qualitativo da inteligência, defende a valorização da compreensão de constelações individuais em lugar de dados quantitativos, atribui  relevância às interações dinâmicas do indivíduo com o ambiente e às diferenças desenvolvimentais  e à plasticidade e mutabilidade da inteligência.

 

O desenvolvimento das Neurociências e dois paradigmas atuais da cognição humana

…. O desenvolvimento das Neurociências nas últimas décadas foi imenso. Novas técnicas de neuroimagem permitiram o estudo de padrões de ativação cerebral in vivo nas mais diferentes situações e durante o desempenho das mais variadas tarefas; a Biologia Molecular dispõe de recursos para a análise do material genético, para a manipulação da expressão de genes selecionados, para a manipulação e visualização de sinapses, de brotamento neural, para o estudo da atividade elétrica das células nervosas, dos canais iônicos, dos neurotransmissores, dos neuroreceptores e de suas interações, apenas para citar alguns exemplos. Estes avanços tecnológicos, aliados à cooperação transdisciplinar, levaram as Neurociências a uma abordagem complexa e integradora da mente humana, afastando-a do paradigma biológico reducionista, simplista e determinista de épocas passadas….

 

Abordagem neurobiológica da inteligência: correlações entre inteligência fluida, memória de trabalho, controle executivo e atenção seletiva

Infográfico com o título “Working Memory”, um cérebro central e desenhos de ampulheta, curva e quadro.

… Vários estudos mostram que inteligência fluida é um conceito intimamente relacionado com o controle executivo e a memória de trabalho (working memory) (Gray, Chabris, & Braver, 2003). O controle executivo é um construto teórico que procura explicar como o cérebro é capaz de realizar várias tarefas ao mesmo tempo, propondo que isto se deve à existência de uma função superior que coordenaria os demais processos cognitivos. O controle executivo corresponderia a tarefas de supervisionar e integrar as informações, guiar o pensamento de acordo com metas internas, direcionar a atenção para informações relevantes, selecionar respostas adequadas e suprimir informações irrelevantes e ações indesejadas (Baddeley & Hitch, 1974). Ele controlaria a memória de trabalho, ou memória operacional, concebida como um sistema ativo que retém, ao mesmo tempo em que processa informações selecionadas, inibindo estímulos paralelos e respostas inadequadas…

 

Abordagem neurobiológica da inteligência: técnicas de neuroimagem e a localização da inteligência no cérebro

O desenvolvimento de novas técnicas de neuroimagem, em especial, de neuroimagem funcional, permitiu in vivo a detecção simultânea de variações de nível de atividade neuronal em diferentes áreas cerebrais. Estas técnicas podem ser associadas à aplicação de tarefas, ou de testes neuropsicológicos que avaliam uma habilidade, ou uma função cognitiva específica….

… Um estudo com 225 adultos jovens saudáveis, avaliados por testes psicométricos e por ressonância magnética nuclear funcional e estrutural, mostrou que o índice de inteligência fluida se correlacionava positivamente com o grau de ativação do circuito fronto-parietal durante tarefas de raciocínio, ou seja, as diferenças individuais de desempenho correspondiam a diferenças funcionais, enquanto que a inteligência cristalizada se correlacionava com a espessura da substância cinzenta no lobo temporal esquerdo, ou seja, com diferenças estruturais, ou anatômicas (Choi et al., 2008)…

Ilustração lateral do cérebro com grupos de áreas coloridas e números associados.
Brain regions by Brodmann area (BA) associated with better performance on measures of intelligence and reasoning that define the P-FIT model. Numbers = BAs; dark circles = predominant left hemisphere associations; light circles = predominant bilateral associations; white arrow = arcuate fasciculus. Jung, R.E.; Haier, R.J. (2007). The Parieto-Frontal Integration Theory (P-FIT) of intelligence: Converging neuroimaging evidence. Behav Brain Sci., 30(2), 135-54, discussion 154-87. http://archive.sciencewatch.com/dr/fbp/2009/09augfbp/09augfbpJungET/

Abordagem neurobiológica da inteligência: genética, interação gene-ambiente e epigenética

Inúmeras pesquisas indicam que estimativas de herdabilidade situam-se por volta de 50% da variação do fator g nas populações estudadas (Deary, Johnson, Houlihan, 2009; Haworth, Wright, Martin, Martin, Boomsma et al. 2009). Recentemente, um estudo multicêntrico de análise ampla do genoma associada à avaliação cognitiva, conduzido na Inglaterra e na Escócia, envolvendo 3.511 indivíduos não aparentados, concluiu que 40% da variação na inteligência cristalizada e 51% da variação na inteligência fluida era estatisticamente associada à informação de marcadores genéticos comuns (Davies, et al., 2011). [Precisão editorial,2026-10-03: o estudo estimou a variação captada por marcadores SNP em associação com variantes causais desconhecidas; não identificou um gene único da inteligência nem percentuais fixos aplicáveis a qualquer população.]…

…No entanto, apesar de sofrer grande influência genética, as habilidades cognitivas são intrinsecamente dinâmicas e plásticas. Há claros indícios de que a escolaridade influencia o desenvolvimento intelectual das crianças (Schweinhart, Montie, Xiang, Barnett, Belfield & Nores, 2005; Neubauer & Fink, 2009). O treinamento em uma tarefa, além de aprimorar o desempenho na mesma, pode melhorar o desempenho em outras tarefas não treinadas, mas que, provavelmente compartilham os mesmos circuitos neurais (efeito de transferência)…

… Por outro lado, adversidades no início da vida também influenciam o neurodesenvolvimento, sendo que o córtex pré-frontal, por ter um longo período de amadurecimento, que se estende até a adolescência, é especialmente vulnerável às experiências da infância. Por exemplo, crianças institucionalizadas, vítimas de privação psicossocial (estimulação insuficiente, ou ausente), apresentam prejuízo nas funções executivas (Bos, Fox, Zeanah & Nelson, 2009; Merz & McCall, 2011)…

 

Conclusões: abordagens generalistas versus abordagens sistêmicas e integrativas; relações da inteligência com a criatividade e com a inteligência emocional

Este texto procurou discorrer de maneira sintética sobre alguns dos principais tópicos relacionados à neurobiologia da inteligência. De início, foram apresentados diferentes modelos e concepções sobre os processos mentais, tendo como objetivo situar a abordagem neurobiológica no contexto de outras abordagens e das divergências e incertezas que pairam sobre o assunto. Em seguida, foram abordados conceitos cognitivos, como a memória de trabalho, as funções executivas e a atenção seletiva, os quais têm sido relacionados à inteligência e contribuído grandemente para a sua compreensão. Dados de neuroimagem foram então discutidos à luz desses conceitos e dos modelos vigentes de funcionamento mental. Finalmente o papel da hereditariedade na determinação da inteligência foi relacionado às evidências das interações gene-ambiente e dos mecanismos epigenéticos…

…Em relação à criatividade, esta é uma característica que ainda desafia tentativas de conceituação e avaliação…

… Em relação às características emocionais, dados recentes confirmam as idéias de David Wechsler de que aspectos não intelectivos influenciam o desempenho intelectual…

… Finalmente, conclui-se que o conhecimento sobre a neurobiologia da inteligência avançou consideravelmente nas últimas décadas, mas…

O capítulo completo é bem mais extenso que os trechos acima. Esses foram expostos com a intenção de convite e estímulo ao estudo do assunto no livro

Altas habilidades/superdotação, inteligência e criatividade.  Angela M. R. Virgolim, Elisabete Castelon Konkiewitz (orgs.)-editora Papirus – 2014.

GIF animado com capa e contracapa do livro “Altas habilidades/superdotação, inteligência e criatividade”.

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