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Integrando as ciências da mente, cérebro e educação

Fotografia de uma criança em pé diante de uma parede, ao lado de uma sombra maior projetada nela.

Neurobiologia e psicologia da pedofilia

Por Ana Claudia Piccinelli.

Resenha do artigo: The neurobiology and psychology of pedophilia: recent advances and challenges. TENBERGEN, Gilian; WITTFOTH, Matthias; FRIELING, Helge; PONSETI, Jorge; WALTER, Martin; WALTER, Henrik; BEIER, Klaus M.; SCHIFFER, Boris e KRUGER, Tillmann H. C. Frontiers in Human Neuroscience, v.9, 2015.Ilustração com figura estilizada de cabelo amarelo e mãos cobrindo a boca, acompanhada por uma frase em espanhol sobre sexualidade infantil.

Nota editorial (2026-10-03): resenha de teorias discutidas em 2015. As associações de amostras clínicas e forenses não estabelecem causa única, diagnóstico por neuroimagem ou previsão individual de abuso. Interesse sexual, transtorno e crime permanecem distintos; a discussão de uma classificação não torna legítimo abuso de crianças.
A pedofilia é definida como um interesse sexual persistente por crianças pré-púberes. O DSM-5 distingue o interesse sexual por crianças pré-púberes do transtorno pedofílico, que exige critérios clínicos específicos. Diagnóstico, interesse sexual e crime não são equivalentes; consumo de pornografia infantil não é apresentado aqui como critério diagnóstico independente. Nota editorial (2026-10-03): esclarecimento acrescentado conforme a ficha oficial da APA sobre transtornos parafílicos, que não reproduz todos os critérios específicos do diagnóstico. Desta forma, o presente trabalho trata das recentes teorias sobre a etiologia da pedofilia, tais como o conceito de um distúrbio neurológico ou alterações de estrutura e função em áreas do cérebro frontal, temporal e límbicas, tendo como principal objetivo discutir hipóteses neurobiológicas e de desenvolvimento relacionadas à pedofilia.

 

Recorte de texto em inglês com o cabeçalho “DSM-5 pedophilic disorder” e seções de critérios e especificadores.
http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fnhum.2015.00344/full

 

A revisão de 2015 menciona estimativas aproximadas de 1% para preferência pedofílica e de até 5% para fantasias em homens, mas ressalta que faltam estimativas confiáveis e que definições e amostras variam. Esses números não são uma prevalência universal ou atual confirmada.

Do ponto de vista clínico, é necessário ressaltar que existem homens com interesse pedofílico que não praticam abuso. Fantasias, por si sós, não demonstram que uma pessoa cometerá um crime; avaliação de risco não se reduz à presença desse interesse. Outro grupo inclui homens com interesse pedofílico que cometeram crimes sexuais contra crianças. Esses indivíduos podem sentir remorso e procurar ajuda para evitar uma recaída, enquanto outros não. Além disso, é necessário distinguir entre o tipo exclusivo de pedofilia e o tipo não-exclusivo, em função de haver atração também por adultos (Schiltz et al., 2007).

 

Diagrama em inglês com cinco estágios de Tanner e ilustrações esquemáticas de desenvolvimento mamário e genital organizadas em colunas.
Tanner scales of males and females as used in sexual preference assessment. Image credit: Michał Komorniczak, 2009, CC-BY-SA. Tanner Scale Male: http://goo.gl/7cxTLM. Tanner Scale Female: http://goo.gl/haB9Cb, both accessed June 09, 2015. http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fnhum.2015.00344/full

 

Pesquisas sobre a etiologia da pedofilia sugerem a ideia de um fenômeno complexo e multifatorial em que as influências da genética, de eventos estressantes, de processos específicos de aprendizagem, bem como de perturbações na integridade estrutural do cérebro podem gerar este fenótipo específico de uma preferência sexual.

Apesar dos diversos métodos clínicos já utilizados para o estudo da pedofilia, como visto no artigo, o autor aponta diversas falhas atribuídas a cada um deles, o que os limita. Porém ressalta ainda, que o método mais importante para determinar um fenótipo de preferência sexual é ainda exploração clínica. Para tanto, o teor de fantasias sexuais, principalmente durante a masturbação revela as preferências de gênero, idade, qual seria o tipo corporal de preferência e as práticas favoritas, sendo assim possível avaliar a preferência sexual em detalhes. Neste método, um ponto negativo seria relacionado aos pacientes envolvidos com o sistema legal, que poderão apresentar respostas parciais ou se recusarem a responder devido à possibilidade de novas acusações.

Em amostras clínicas discutidas na revisão, participantes com interesse pedofílico apresentavam histórico de transtornos psiquiátricos, o que pode dificultar a investigação de associações e etiologia. Entre participantes com interesse pedofílico em tratamento residencial ou ambulatorial, dois terços tinham uma história da vida de transtornos do humor ou ansiedade, 60% tinham história de abuso de substâncias, e 60% preenchiam critérios para um transtorno de personalidade, sendo o obsessivo-compulsivo (25%), o antissocial (22,5%), o narcisista (20%) e o de evitação (20%) os mais comuns. A grande questão nesse caso seria: devemos continuar a classificar a pedofilia como um transtorno psiquiátrico ou como uma orientação sexual?

 

Diagrama em inglês intitulado “Neuropsychology of Pedophilia and Child Sexual Offending”, com listas e setas entre blocos de texto.
http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fnhum.2015.00344/full

 

Os autores apontam três principais teorias neurobiológicas para a pedofilia, a primeira é a teoria do “lobo frontal”, que refere-se ao córtex orbitofrontal e dorsolateral do córtex pré-frontal  que apresentam diferenças entre os lados esquerdo e direito e que são frequentemente vistas em homens pedófilos. À medida que o córtex órbito-frontal é responsável pelo controle do comportamento especialmente na inibição do comportamento sexual, as diferenças de volume ou disfunção nessa área poderiam explicar o distúrbio de comportamento sexual relacionado com pedofilia. Já a segunda teoria do “lobo temporal”, pois existem relatos da hipersexualidade, que acompanha a pedofilia e estudos têm demonstrado que as perturbações dos lobos temporais poderiam resultar em um aumento nos comportamentos pedófilos ou um aumento na amplitude de interesses sexuais. Estes distúrbios incluem lesões temporais e esclerose do hipocampo (Hall e Hall, 2007).

A terceira teoria neurobiológica afirma que diferenças nas estruturas cerebrais de dimorfismo sexual são afetadas pela masculinização do cérebro que influenciaria mais fortemente o desenvolvimento da pedofilia, isto é, estruturas cerebrais aumentariam ou diminuiriam seu volume como resultado da exposição à testosterona. Porém as pesquisas não respaldaram essa hipótese, já que nos lobos frontais e temporais, essas diferenças seriam limitadas. Uma teoria adicional, por outro lado, combina as teorias do lobo frontal e temporal, e afirma que os lobos frontais e temporais afetam a expressão da preferência sexual do pedófilo e seus comportamentos associados de forma diferente. Alterações do lobo frontal (orbitofrontal e córtices pré-frontal dorsolateral) aumentariam o risco de cometer os crimes sexuais contra crianças e alterações do lobo temporal (amígdala e hipocampo) levariam ao desejo sexual por crianças em homens pedófilos.

Na revisão de 2015, a pedofilia é discutida como uma interação entre os fatores do desenvolvimento neurológico e o ambiente uterino. A forma como tais interações relacionam-se com a preferência sexual do pedófilo, e o fato deste cometer crimes sexuais contra crianças ou consumir pornografia infantil não estão bem esclarecidas. Pesquisas que têm como objetivo investigar o desenvolvimento neurológico e o papel da desregulação epigenética no desenvolvimento sexual demonstraram resultados que apontam para pequeno componente hereditário em pedófilos, com casos agrupados em famílias e transmissão familiar de fantasias sexuais e comportamentos desviantes. Nos estudos citados, homens com interesse pedofílico e histórico de crimes sexuais contra crianças apresentavam maior frequência de lateralidade não destra que o grupo de comparação, em algumas amostras também foram relatadas diferenças de estatura e maior frequência de traumatismos cranianos antes dos 13 anos. Os resultados sobre inteligência eram contraditórios; não se pode atribuir inteligência inferior a todas as pessoas com esse interesse ou deduzir comportamento criminoso dessas características.

 

Diagrama radial com “Pedophilia” no centro, categorias conectadas por linhas e listas em inglês.
http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fnhum.2015.00344/full

 

Nota editorial (2026-10-03): foram corrigidos dois erros de resumo dos dados de personalidade e lateralidade por cotejo com Tenbergen et al. (2015). São associações de amostras específicas, sem valor de diagnóstico individual ou previsão de violência. Ao final, os autores sugerem que futuras investigações devem envolver a análise de neuroimagem e utilizar critérios mais rigorosos para inclusão e exclusão de pessoas envolvidas nos estudos, a fim de evitar possíveis confusões e lacunas que possam ser diferentes entre os pedófilos ofensores e não ofensores. Tais mudanças na seleção ajudariam os pesquisadores a entender melhor quais áreas do cérebro estão envolvidas no desenvolvimento sexual dos pedófilos. Exames de sintomatologia e aspectos clínicos da pedofilia devem primeiro tentar replicar conclusões iniciais antes que ideias inovadoras possam ser devidamente testadas, incluindo a testosterona e o seu papel no desenvolvimento da pedofilia ou o papel de neurotransmissores, tais como dopamina e serotonina e suas densidades do receptor em relação a perturbações comportamentais.

Duas silhuetas projetadas sobre o chão, uma maior e outra menor, próximas a uma grade.

 

Cantor, J. M., Kabani, N., Christensen, B. K., Zipursky, R. B., Barbaree, H. E., Dickey, R., et al. Cerebral white matter deficiencies in pedophilic men. J. Psychiatr. Res. 42, 167–183, 2008.

Hall, R. C. W., and Hall, R. C. W. A profile of pedophilia: definition, characteristics of offenders, recidivism, treatment outcomes, and forensic issues. Mayo Clin. Proc. 82, 457–471, 2007.

Schiltz, K., Witzel, J., Northoff, G., Zierhut, K., Gubka, U., Fellmann, H., et al. Brain pathology in pedophilic offenders. Arch. Gen. Psychiatry 64, 737–746, 2007.

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