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Integrando as ciências da mente, cérebro e educação

Fotografia de um homem de terno segurando um pequeno macaco diante de equipamentos; ao lado há uma estrutura com rosto desenhado.

Regina M. Sullivan. Hastings Law Journal, 2012 Aug;63(6):1553-1570.  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3774302/

 

Ilustração colorida de mulher adulta envolvendo um bebê; formas onduladas em espiral cercam as figuras, com pequenas paisagens ao redor.
The-Letting-Go-Spiral-by Durga Bernhard

Nota editorial (2026-10-03): resenha histórica da revisão de Sullivan (2012). Achados de grupos humanos e mecanismos estudados em animais não predizem o desenvolvimento de uma criança individual. As descrições de períodos de vínculo e de regulação hormonal sintetizam essa revisão; não são marcos universais nem prova de dano irreversível. O vídeo de Harlow não foi avaliado nesta edição; o relato textual foi cotejado com seu artigo de 1958.

Diversos estudos concluíram que o desenvolvimento do cérebro se faz em um palco onde a genética e as experiências da infância são os atores principais, por serem responsáveis por alterar a estrutura e o funcionamento cerebral com o intuito de se adaptar ao mundo. Essas experiências, traumáticas ou não, possuem um poder imensurável na vida adulta, pois podem alterar drasticamente o número de neurônios e a quantidade de sinapses entre eles. Os estudos acerca do tema buscam um entendimento sobre como esse cenário influencia nosso comportamento, nossas escolhas e a maneira que abordamos o mundo. Dentro dessa perspectiva, o artigo de revisão de literatura faz uma ligação entre o circuito de vínculo desenvolvido na infância e a existência de uma figura abusiva nesse período.

Primeiramente, é preciso entender que o circuito cerebral de vínculo, ou attachment,  faz-se necessário para que a criança mantenha proximidade com o cuidador que é aquele responsável por nutrir e proteger. Além disso, o vínculo é responsável por programar estruturas cerebrais futuras, ligadas às emoções, à cognição e à visão de mundo como um lugar seguro ou perigoso.

No desenvolvimento normal do cérebro, neurônios não utilizados morrem, e, por associação, os utilizados sobrevivem. Nas condições traumáticas, esse panorama é alterado, pois além de muitos neurônios úteis morrerem, alguns neurônios não utilizados sobrevivem. Esse descompasso pode ser exemplificado pelos órfãos na Romênia cujo severo isolamento físico e social resulta em cérebros menores. Na China, as crianças órfãs adotadas possuem amígdalas maiores, sugerindo alterações emocionais e problemas de processamento do medo. A tragicidade reside no fato de que se o vínculo não for desenvolvido na infância, poderá haver prejuízo no desenvolvimento, ou ainda, se o vínculo coexistir com o medo, esses sistemas poderão tornar-se excessivamente coordenados. Também vale ressaltar que muitos efeitos da infância podem permanecer dormentes até a vida adulta, quando alguns circuitos voltam a ser ativados.

Para que a criança se desenvolva física e mentalmente, ela necessita não só de nutrição adequada e de cuidados básicos, mas também se fazem necessários o afeto e a interação social. Esse componente do desenvolvimento é um tanto quanto abstrato e pode ser explicado pela necessidade infantil de estimulação sensorial. Um exemplo ilustrativo é de que o toque pode regular a quantidade de hormônio de crescimento na criança e a simples presença do cuidador reduz a quantidade de hormônio causador de stress.

É preciso entender que não há um receptor específico para amor ou para a sensação de segurança, a única via para se entrar no cérebro da criança são os cinco sentidos, capazes de mudar a bioquímica e a atividade neural. Essa via sensorial permite a existência de maneiras distintas de desenvolvimento resultando em adultos psicologicamente saudáveis. Essa heterogeneidade é importantíssima, porque crianças criadas dentro de culturas diferentes tornam-se adultos saudáveis e socialmente produtivos.

A estrutura do vínculo começa a ser construída no último trimestre da gravidez, quando o sistema sensorial do bebê torna-se funcional. A partir daí, a voz materna viaja pelos tecidos e pelo líquido amniótico e estimula o sistema auditivo da futura criança, os cheiros (principalmente o odor materno) e gostos sentidos pela mãe também passam para o bebê estimulando seus sentidos. Como consequência desse processo, após o nascimento, o bebê já reconhece a mãe e ela já tem poder para acalmá-lo. O próximo período crucial de vinculação é delimitado dos nove meses de idade até o primeiro ano, pois é nesse momento que a criança forma a representação psicológica do cuidador. Após esse primeiro ano de vida, há uma ligação forte entre a criança e o cuidador, independentemente de este último ser abusivo ou não.

Pesquisas com ratos foram importantes para se entender o mecanismo de vínculo na presença de um cuidador abusivo. Nos filhotes de ratos, o aprendizado do vínculo olfativo depende de níveis elevados de norepinefrina; em bebês humanos, níveis elevados foram associados ao período de formação do vínculo. O curioso é que o circuito cerebral não é capaz de diferenciar ações normais das abusivas, sendo que há secreção de norepinefrina tanto em eventos normais, como aleitamento e toque carinhoso, como também em eventos abusivos, quando a mãe rato pisava nos filhotes.

 

Diagrama em inglês sobre circuito de aprendizagem do apego e supressão de CORT materna: setas ligam bulbo olfatório, locus coeruleus, amígdala e córtex piriforme anterior; abaixo, desenhos de ratos em recipientes de odor.
Aprendizado do vínculo: O circuito de vínculo exige elevados níveis de norepinefrina (“NE”) do locus coeruleus (“LC”) para interpretar o odor materno através da plasticidade no bulbo olfativo. Os filhotes vão aprender o vínculo, mesmo quando a dor é sentida, desde que os níveis de corticosterona (“CORT”) estejam baixos. O bloqueio CORT impede a aprendizagem do medo.

 

Outras pesquisas em ratos mostraram que a amígdala, área do cérebro responsável pelo medo e por evitar aquilo que causa dor, não participa do mecanismo de cheiro na infância. Portanto, como o odor é o principal meio de percepção do mundo nessa idade, o filhote é impedido de sentir medo, forçando um vínculo ao cuidador, independente da qualidade do cuidado recebido.

http://www.youtube.com/watch?v=MmbbfisRiwA&hd=1

 

Vídeo: Os macacos de Harlow: uma experiência, descrita em 1958, consistiu em retirar macacos bebês de suas mães e colocá-los junto a duas mães de metal. Uma era revestida por tecido macio e a outra era de arame; a oferta de leite foi alternada entre os dois tipos nos grupos do experimento. Os macacos preferiram o contato com a mãe-coberta e rejeitaram a mãe que possuía comida. Demonstrando a importância do vínculo. Nota editorial (2026-10-03): o estudo de mães substitutas descrito em 1958 não estabelece dano permanente de todos os animais. Estudos de isolamento e privação não devem ser confundidos com esse protocolo.

Fotografia de um homem de terno segurando um pequeno macaco diante de equipamentos; ao lado há uma estrutura com rosto desenhado.
Harry Harlow com o macaquinho dos seus experimentos.

Certa quantidade de estresse pode ser positiva para preparar o corpo em caso de emergência, porém, é sabido que estresse prolongado tem impactos negativos. Lares caóticos, divórcio dos pais e abuso físico são exemplos de fatores estressantes para a criança. Felizmente, há um mecanismo para evitar o estresse nesse período crítico da vida chamado social buffering, pelo qual uma figura de vínculo pode atenuar a resposta ao estresse. O mecanismo de modulação da aprendizagem do medo pela amígdala foi investigado nos filhotes de ratos descritos na revisão.

Mesmo com uma série de mecanismos protetores, as consequências dos traumas perfazem uma lista grande de distúrbios psicológicos comuns nos dias de hoje, como a depressão e os transtornos de comportamento. O entendimento do mecanismo de doenças causadas pelo abuso é de alta relevância para o tratamento correto desse número colossal de vítimas. A compreensão da relação criança-cuidador, mecanismo de vínculo, medo e estresse ainda precisam ser mais bem elucidadas, sendo que inúmeros mecanismos ainda permanecem ocultos. A pesquisa acerca do tema também encontra diversas barreiras éticas e a maioria das descobertas se deu em outros mamíferos com um sistema neural mais simples que o nosso. Esse panorama reflete uma maior necessidade de pesquisa e entendimento dos mecanismos humanos de trauma e suas consequências na vida posterior.

 

 

 

Selfie vertical de uma pessoa sorrindo, usando camiseta azul diante de uma cobertura de madeira.Lucas Shuiti Braga Motomia

Nascido em 14 de novembro de 1994, é natural de Dourados e graduando do curso de Medicina da UFGD – XIVa turma. Participa, também, como bolsista do projeto Jovens Talentos para a Ciência – Capes/CNPq.

 

 

 

 

Referência:

Regina M. Sullivan; The Neurobiology of Attachment to Nurturing and Abusive Caregivers; Hastings Law J. 2012 August;63(6):1553–1570

 

Site: http://psicologiaexperimental.blogs.sapo.pt/1627.html [acesso em: 30 de outubro de 2013]

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