Organização Ciências e CogniçãoCNPJ 13.413.391/0001-18

Integrando as ciências da mente, cérebro e educação

Pintura em tons terrosos mostrando uma figura adulta curvada em torno de um bebê deitado.

Nota editorial (2026-10-03): texto didático de 2013, com cronologias aproximadas e relatos históricos. Foram corrigidas formulações absolutas sobre cicatriz astroglial e reorganização cortical. Experimentos animais não estabelecem recuperação clínica individual; a passagem sobre massagem é uma narrativa atribuída a Leboyer, não demonstração de eficácia terapêutica ou substituição de alimentação.
Desenvolvimento cerebral pós-natal

 Diagrama em dois painéis, “Células musculares” e “Células ganglionares”, com fibras e terminações coloridas em duas etapas.

 

Ao nascimento, a organização geral do encéfalo está estabelecida, mas sua maturação estrutural e funcional continua. O que muda então com os primeiros anos de vida para determinar todo o novo modo em que o ser em desenvolvimento percebe o mundo? Um aspecto importante é a sinaptogênese. Sinapses já são observadas antes de 27 semanas de idade concepcional, e o pico de sinaptogênese varia conforme a região cerebral. Ela começa primeiramente nas camadas mais profundas, seguindo o mesmo padrão de crescimento neuronal. Ao mesmo tempo em que ocorre a sinaptogênese, os neurônios vão aumentando o tamanho de suas árvores dendríticas, o tamanho de seus axônios e sofrendo mielinização. Seguido este período de sinaptogênese, ocorre a poda sináptica, que seria a destruição de diversas sinapses_ uma regulação fina do sistema nervoso que exclui sistemas redundantes.

 

Três imagens lado a lado de células nervosas com padrões de ramificação diferentes; há uma linha de crédito impressa na base.

 

Esse processo de criação e destruição de sinapses parece ocorrer em tempos diferentes para áreas diferentes do cérebro humano. As sinapses da região temporal superior (córtex auditivo) tem seu pico mais cedo, por volta de 3 meses de idade pós-natal, enquanto que a sinaptogênese do córtex de associação frontal chega ao pico após os 15 meses de idade. Isto sugere que em humanos a sinaptogênese e a poda ocorrem primeiramente no córtex sensorial e motor e posteriormente no córtex associativo.

Estudos de neuroimagem funcional (uso de glicose marcada em diferentes áreas cerebrais) revelam que, em recém-nascidos, o metabolismo da glicose está aumentado em áreas corticais e motoras, no hipocampo e em áreas subcorticais, como tálamo, tronco encefálico e vermis cerebelar. Com 2 a 3 meses de idade, mais glicose é usada nos córtices parietal, temporal e visual primário, assim como nos núcleos da base e nos hemisférios cerebelares. Aos 6-12 meses de idade, o consumo de glicose aumenta no córtex frontal. No decorrer do desenvolvimento, o nível total de glicose utilizada no cérebro vai gradativamente aumentando, alcançando um pico por volta dos 4 anos, que se mantém num platô até os 10 anos, quando então começa a diminuir até chegar ao nível dos adultos em torno dos 16 -18 anos.

 

 

Dois esquemas de ramificações neurais com setas e rótulos em inglês.
poda sináptica

 

 

 

Concluímos através destes dados que as áreas de associação demoram mais para se desenvolver do que estruturas corticais e subcorticais motoras e sensitivas.

O grande aumento de volume do encéfalo nos primeiros anos de vida reflete principalmente a proliferação das células gliais e da mielinização dos axônios. O volume da substância cinzenta varia durante o crescimento em tempos diferentes para cada área do córtex.

A experiência tem algum papel no desenvolvimento cerebral? Experimentos com ratos nos mostram que aqueles submetidos a atividades motoras produzem mais células gliais, e ratos que vivem em ambientes que favorecem o aprendizado apresentam mais ramificações dendríticas. Da mesma forma, os estímulos sensoriais e a atividade neuronal podem ser necessários para a poda (eliminação sináptica).

 

Plasticidade

 

Comparação de duas gaiolas para camundongos e dois desenhos de células nervosas com ramificações diferentes.
ambiente enriquecido, estimulação sensorial e neuroplasticidade

Durante o desenvolvimento embrionário o sistema nervoso apresenta-se de certa forma bem plástico embora alguns processos apresentem menor plasticidade no adulto, que permanece capaz de reorganização ao longo da vida. Esta plasticidade pós-natal é limitada, pois as células não são livres para migrar para várias áreas, porém em períodos denominados sensíveis uma plasticidade local pode ocorrer quando influências extrínsecas podem alterar a organização cerebral.

A resposta glial à lesão é complexa e não pode ser descrita apenas como uma barreira absoluta à regeneração. Nota editorial (2026-10-03): Anderson e colaboradores (2016) mostraram, em condições experimentais de lesão medular em camundongos, que a cicatriz astroglial pode apoiar crescimento axonal estimulado; isso não demonstra regeneração clínica garantida. Fonte adicional: DOI 10.1038/nature17623.

As aferências sensoriais podem instruir o córtex a como se comportar: Experiências mostraram que, redirecionando por manipulação cirúrgica axônios da retina para o núcleo auditivo do tálamo essa região passa a se comportar processando a informação visual como se fosse um núcleo talâmico visual.

 

A pele é   o nosso maior órgão sensorial: estímulo e neuroplasticidade. O médico francês Frédérick Leboyer estava visitando   a Índia em 1959, quando  viu uma mulher massageando   seu bebê numa calçada pública. [Nota editorial (2026-10-03): identificadores e condição de saúde da pessoa do relato foram omitidos nesta edição; o original histórico foi preservado no acervo.] Ele conta:

“Parei, impressionado com o   que eu estava presenciando: Em   meio à sujeira e à miséria,   um espetáculo da mais pura beleza.   Um diálogo silencioso de amor entre uma mãe e seu bebê”.

A massagem criava uma conexão   emocional entre o bebê e a mãe.

Fascinado, Leboyer fotografou e filmou a mãe, estudou e analisou seus movimentos. Finalmente, ele redigiu um   livro, através do qual trouxe ao ocidente esta técnica indiana milenar,   originária de Kerala, a qual, em homenagem à sua mestra, deu o nome de   shantala.

 “Sim, os bebês tem necessidade de leite, mas muito mais de serem amados 
e receberem carinho, 
serem levados, embalados, acariciados, pegos e massageados”

Leboyer

 

Fotografia em preto e branco de uma pessoa adulta sentada ao ar livre massageando os pés de um bebê deitado sobre suas pernas.
Registro histórico de uma mãe massageando seu bebê; técnica conhecida como shantala

 

Mapas corticais

 

Nosso córtex somatossensorial possui uma representação de toda a superfície do nosso corpo, organizada de forma padronizada, de acordo com a migração das células da zona ventricular, formando as colunas que são representadas no homúnculo somatossensorial_homúnculo de Penfield. Existe um mapa para a mão, o braço, os membros inferiores, a língua e assim por diante. O mapa é organizado de forma que áreas anatomicamente vizinhas mantêm esta relação no córtex, fenômeno conhecido como somatotopia. Assim, a coluna cortical do dedo anular está contígua à do dedo médio.

 

Ilustração lateral do cérebro com áreas frontal e parietal destacadas e nomeadas.
córtex motor primário e córtex somatossensorial primário

 

Ilustração de dois corpos humanos estilizados que representam córtex motor e córtex sensorial.
homúnculo de Penfield-representação cortical das diferentes partes do corpo humano

 

 

O princípio da linha rotulada e a reorganização do córtex humano

 

Diagrama de linhas coloridas que convergem em círculos alinhados, com setas e rótulos.
princípio da linha rotulada

 

 

O sistema nervoso segue o princípio da linha rotulada, ou seja, cada área do corpo é inervada por uma determinada fibra nervosa e terá uma conexão de caminho definido com o sistema nervoso. Por exemplo, as fibras de uma determinada região da retina seguem um caminho pré-definido de sinapses e conexões até uma determinada região do córtex visual. Acontece que as linhas rotuladas podem se desviar, de forma que o mesmo estímulo sensorial passe a ativar outras rotas neuronais.

Experimentos de união cirúrgica de dedos adjacentes em macacos adultos mostraram reorganização das representações no córtex somatossensorial, com campos receptivos que passaram a abranger os dois dedos. Nota editorial (2026-10-03): o estudo de Allard e colaboradores (1991), DOI 10.1152/jn.1991.66.3.1048, não estabelece a fusão de uma “coluna motora” correspondente.

Em caso de amputação, ou de secção de nervo, a área do córtex somatossensorial que recebia as respectivas aferências pode ter suas respostas reorganizadas por entradas de outras regiões; isso não significa um espaço vazio preenchido por neurônios vizinhos. Este fenômeno foi descrito pelo neurologista Vilayanur S. Ramachandran ao observar um paciente que estava com o braço amputado e relatava sentir este braço fantasma, quando um cotonete tocava sua bochecha ipsilateral. O estímulo na face ativa os neurônios da área da mão do córtex somatossensorial primário (S1). Acredita-se que estas rotas já existiam e que foram descobertas, ou desmascaradas” após a lesão. Esta plasticidade não está presente somente no sistema somatossensorial mas também no auditivo e visual.

 

Painel com desenho de rosto e mão, fotografia de um rosto com marcações e imagem cerebral com pontos coloridos.
estímulo no braço e na face causam sensações em áreas específicas da mão fantasma
From Dr. V.S Ramachandran’s Slides. Copyright V.S. Ramachandran
http://mindbind.wordpress.com/2007/11/07/neuroscience-200bc/

 

 

Dr. Joel Cavalheiro Martins Júnior-médico formado pela UFGD-VIIIa turma.

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