Resenha do artigo, “Are treatment effects of neurofeedback training in children with ADHD related to the successful regulation of brain activity? A review on the learning of regulation of brain activity and a contribution to the discussion on specificity”.
Zuberer A, Brandeis D, Drechsler R. Department of Child and Adolescent Psychiatry, University of Zurich, Zurich, Switzerland, Mar, 2015. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4376076/pdf/fnhum-09-00135.pdf
Nota editorial (2026-10-03): resenha histórica de Zuberer e colaboradores (2015), sobre aprender a regular parâmetros do EEG. Isso não comprova melhora da aprendizagem escolar ou eficácia clínica específica. A metanálise de ensaios randomizados publicada em 2025 não encontrou melhora significativa dos sintomas totais de TDAH nas avaliações provavelmente cegas, nem benefício clínico relevante geral; não sustenta apresentar neurofeedback como tratamento isolado comprovado. Fonte adicional: Westwood e colaboradores, JAMA Psychiatry, DOI 10.1001/jamapsychiatry.2024.3702.
O estudo enfatiza a análise da aprendizagem de autorregulação e do desempenho no neurofeedback em participantes com TDAH, para investigar como a regulação de parâmetros cerebrais evolui durante o treinamento.
Inicialmente, (TDAH) significa Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e se caracteriza por um frequente comportamento de desatenção, hiperatividade e impulsividade causando prejuízo na vida social, e/ou escolar do paciente. Vários sintomas devem estar presentes antes dos 12 anos. Nota editorial (2026-10-03): correção conforme DSM-5, ficha oficial da APA acrescentada nesta revisão; o limite de sete anos corresponde ao DSM-IV. Os sintomas devem estar presentes em dois ou mais contextos e causar prejuízo funcional.
O TDAH frequentemente está associado a outros transtornos como comportamento disruptivo, depressão, ansiedade e transtornos da aprendizagem. As funções executivas têm sido consistentemente relacionadas com o córtex frontal. Disfunções executivas estão relacionadas com o transtorno do déficit de atenção com ou sem hiperatividade e causam dificuldades com o controle inibitório, memória operacional, flexibilidade cognitiva, tomada de decisões e fluência verbal.
O funcionamento cerebral é determinado por fatores hereditários, como a genética e os processos maturacionais, bem como por fatores ambientais. Isso significa que o cérebro se modifica em resposta aos estímulos e às situações experimentadas. O desenvolvimento em geral e do cérebro em particular, segue sequências geneticamente determinadas. Mas, mesmo com essas instruções genéticas meticulosamente especificadas, o ambiente desempenha um papel importante. Essa dinâmica que se caracteriza por reorganizações e mudanças no cérebro, devidas às experiências ou lesões, é conhecida por plasticidade cerebral ou neuroplasticidade. O cérebro é capaz de mudar a partir da experiência e a aprendizagem possui, portanto, base biológica, ocorrendo por causa de alterações no nível das células nervosas, que, por sua vez, alteram as conexões sinápticas entre elas.

Ilustração de uma sessão de neurofeedback. Fonte histórica da imagem: http://www.intenseexperiences.com/neurofeedback.html. Nota editorial (2026-10-03): a legenda promocional original foi substituída por descrição neutra; suas promessas de melhora de memória, criatividade e sono não foram demonstradas pelo artigo resenhado.
O neurofeedback (NF) utiliza registro e retorno de informações sobre a atividade cerebral para treinar a autorregulação de parâmetros selecionados. O treino mais utilizado em pacientes com TDAH é o treino teta/beta, que consiste em diminuir a atividade da banda teta e aumentar a atividade da banda beta. Este tipo de treino busca modificar parâmetros do EEG, com o objetivo estudado de reduzir desatenção e impulsividade; isso não comprova correção de uma disfunção neuronal subjacente.
Surgindo da junção de pesquisas em neurologia, fisiologia e psicologia experimental, baseia-se no registro e na análise precisos de atividades cerebrais, por um processo em que os parâmetros analisados são selecionados e apresentados em tempo real para quem se está treinando, na forma de autoinformação (feedback). Tais parâmetros representam determinados processos fisiológicos, que normalmente são ignorados e escapam ao controle e à percepção humanos. Desse modo, a técnica de neurofeedback funciona para o cérebro como uma espécie de espelho: ao utilizar-se do sinal de autoinformação, o participante tenta aprender a controlar esses parâmetros.
Foram identificados 15 estudos publicados sobre neurofeedback em crianças com TDAH, utilizando bandas de frequência e/ou potenciais corticais lentos, que incluem a análise da regulação de aprendizagem ao longo do tempo em sessões de formação. Os registros eletroencefalográficos são obtidos através de eletrodos sobrepostos em sítios específicos da cabeça e conectados a um aparelho chamado eletroencefalógrafo. Os pacientes recebem contínuos contatos audiovisuais. Quando se analisa a atividade eletroencefalográfica, muitas vezes olha-se para a atividade dentro de uma banda de frequência específica. As ondas do EEG são uma mistura de várias bandas de frequência diferentes, que são transformadas e quantificadas para posterior análise.

Enquanto a frequência de protocolos de EEG específicos são geralmente empregues com o objetivo de obter ”normalização” de características espectrais em pacientes com TDAH, uma justificativa mais recente é treinar a ”regulação” da atividade destes espectros. As unidades de medidas mais comumente utilizadas são a média do nível de amplitude e a porcentagem de tempo para um limiar de atividade de EEG pré-definida. A quantidade de diminuição ou aumento de amplitude na direção desejada ou o aumento da quantidade de tempo gasto na gama desejada de frequências devem refletir na melhoria da eficiência da regulação do participante através do tempo.
Em seis dos 15 estudos, NF de potenciais corticais lentos (NF-SCP) foram usados, em algumas vezes, em combinação ou em contraste com NF-FR. SCPs são variações lentas dos potenciais eletrocorticais, consideradas índices da regulação da excitabilidade cortical. Ensaios NF-SCP são curtos, duram em cerca de oito segundos, e os participantes são instruídos para melhorar a ativação (ensaios de negatividade) ou reduzir a ativação (ensaios de positividade) em relação à linha de base medida no início de cada ensaio.
Deve-se ter em mente que os padrões de aprendizagem em pacientes com TDAH além de serem extremamente individuais, podem também depender substancialmente de fatores do ambiente, tais como a relação com o terapeuta, motivação, apoio externo. Estudos que analisam os padrões iniciais de aprendizagem através de EEG ou dentro de sessões com relação ao desempenho global de aprendizagem em EEG, são raros. No entanto, a identificação de preditores precoces de aprendizagem em NF seria muito útil em termos de proporcionar uma melhor base para a tomada de decisão terapêutica ou adaptar o treinamento de acordo com os protocolos.
De acordo com vários autores do campo, crianças com TDAH precisam praticar ativamente estratégias mentais para o cérebro autorregular a atividade, sendo instruídas sobre como traduzir a habilidade recém-aprendida na vida cotidiana. É sugerido que, durante as primeiras lições de treinamento, o treinador deve incentivar a criança a encontrar uma estratégia adequada. Esta estratégia inicial deve ser gradualmente reduzida, até que finalmente, possa ser abandonada no decorrer do treinamento, quando a regulação passar a ser automatizada.

Em estudos futuros, mais atenção deve ser dada à questão do motivo que crianças com TDAH podem deixar de aprender a atividade de auto-regulação do cérebro. Uma questão crucial é como interpretar padrões de curva de aprendizagem em termos de desempenho de aprendizagem, e se é possível distinguir padrões de aprendizagem característicos no TDAH.
Referências
Gazzaniga, M. S., & Heatherton, T. F. (2005). Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Artmed.
Gevensleben, H, B. Holl, et al. (2010). Neurofeedback training in children with ADHD: 6-month follow-up of a randomised controlled trial. European Child & Adolescent Psychiatry 19 (9): 715- 724.
Londero, I, & Gomes, J. S. (2014). Neurofeedback hemoencefalográfico (HEG): possibilidades de aplicações no campo da saúde. Ciências e Cognição/Science and Cognition, 19 (3).
Swingle, P. (2008). Biofeedback for the Brain: How Neurotherapy Effectively Treats Depression, ADHD, Autism, and More. London, UK: Rutgers University Press.

