Percepção e construção da realidade – parte 1
Edward Ziff e Elisabete Castelon Konkiewitz
“Outra descoberta fundamental que eles (os impressionistas) fizeram: ao ar livre, a cor de um objeto não é invariavelmente a mesma. Ela depende da atmosfera, que filtra a luz e permite os reflexos. E a atmosfera muda o tempo todo, conforme a hora, o lugar, a temperatura, etc. O que há pouco era uma forma volumosa transforma-se em leve sugestão; o escuro torna-se claro. Como, porém, os homens não percebem normalmente estas modificações? É que não vêem a natureza com os olhos e sim com a mente_ responderam os impressionistas. Ou seja, nós não vemos as coisas tais como elas se mostram num momento dado. Nós vemos sempre sua imagem ideal, abstrata, imutável. Estamos habituados a ver não aquela árvore, mas uma representação da idéia de árvore.”
(Coleção Gênios da pintura, Ed Abril Cultural, 1980)

Nota editorial (2026-10-03): ensaio de 2012 sobre percepção, com metáforas e interpretação artística dos autores. “Invenções” e “quebra-cabeça” são imagens didáticas, não negação da realidade externa. Citações literárias/artísticas mantêm suas atribuições históricas; suas edições não foram cotejadas integralmente nesta revisão.
As diferentes percepções são integradas para, num resultado final, compor a representação de um objeto. Assim, a imagem de um objeto é constituída por vários elementos apreendidos em diferentes áreas do cérebro e então unidos como num quebra-cabeça. Por exemplo, a imagem de um rosto: as informações de cor, profundidade, tamanho, distância vão para regiões distintas do córtex visual e são integradas em redes de regiões visuais e associativas que contribuem para a representação mental do objeto visto.
No entanto, a mudança constante dos estímulos do ambiente implica em muitos desafios para a sobrevivência e adaptação. É preciso então que o cérebro encontre estratégias para estabilizar o ambiente que representa. Ele cria, além do sentido da visão, incluindo a cor e a capacidade de reconhecer os objetos familiares, o sentido da audição com a capacidade de reconhecer os sons diversos incluindo a linguagem. Cria o sentido do cheiro, incluindo a capacidade de distinguir o que é agradável e o que é repelente. Cria a sensação de toque, incluindo a discriminação entre dor e prazer. Por exemplo, o produto químico, 8-metil-N-vanilil-6-nonenamida (capsaicina), cria a sensação de calor, e o produto químico benzoilmetilecgonina (cocaína) pode produzir sensação de bem-estar. Estas sensações são invenções do cérebro.
Quando você explora o mundo, você se beneficia de experiências do passado. Isso é outro método de simplificação e estabilização do mundo fornecido pelo nosso cérebro. Mais importante, o cérebro conecta estas sensações uma à outra, para fazer concepções mais complexas. Se você vê uma cadeira pela frente ou por trás, você pode reconhecê-la. Embora cada perspectiva seja diferente, você não necessitaria memorizar cada imagem separadamente, pois cada uma delas corresponde a uma cadeira. O conceito de cadeira está presente no cérebro e cada imagem nova se junta a esta concepção geral.
As informações contidas não estão registradas dentro dos neurônios em forma de gigabytes em um ‘hard disk’ como em um computador. Em verdade, são criadas no cérebro que inventa toda a informação contida nos sentidos, incluindo o da audição, da visão, do toque etc. Percepções visuais, auditivas, táteis são armazenadas numa forma desconstruída, em cada região uma característica da imagem (sua cor, seu cheiro, o som da voz, etc). Relembrar é remontar o quebra-cabeça, todas as peças se juntando ao mesmo tempo, disparando ao mesmo tempo. A subjetividade é a base da nossa representação interna do mundo. A percepção sensória não é um registro fiel do mundo externo, mas um processo de construção, no qual as percepções são acopladas, de acordo com regras inerentes das vias sensórias e das sinapses do sistema nervoso. Os indivíduos interpretam o ambiente externo a partir de um ponto de vista, de um ponto específico no espaço, bem como de um ponto específico de sua própria história.
“O Universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente.
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso”.
Alberto Caeiro
Estas invenções simplificam o mundo. Mas para utilizar esta informação simplificada para sobreviver, o cérebro deve juntar a informação aos valores pessoais, deve memorizar o valor de cada evento, e lembrar o que acontece e sua influência sobre a possibilidade de sobreviver. O cérebro avalia, automaticamente, a contribuição na sobrevivência de cada sensação, cada combinação de cor, som, objeto, toque, calor, sentido de bem-estar, fazendo ao mesmo tempo as generalizações e simplificações. Essas memórias guiam nossas escolhas de comportamento. Mais importante, a existência destes mecanismos enfatiza o papel central do cérebro em nossa interação com o mundo. Duas pessoas podem estar na mesma situação e reagir de forma completamente diversa, porque cada uma em seu cérebro atribuiu a esta situação valores diferentes para a sua sobrevivência.
A evolução do sistema nervoso tem um outro princípio importante. Porque o mundo se transforma, devemos nos preparar para o futuro e identificar novos recursos para a sobrevivência. Para facilitar esse movimento, a repetição cria o tédio. Uma vida com a mesma roupa, mesma comida, mesmo ambiente e mesmas atividades seria terrível. Tudo isso faz o tédio, e o tédio cria a necessidade de busca por novidade. Então criamos a moda, os restaurantes exóticos, viagens ao exterior, jogos de vídeo, a dança, a música e os esportes.
Nos homens, estas habilidades do cérebro são muito mais refinadas em comparação aos outros animais. A nossa capacidade para criar coisas exóticas é muito maior que a nossa necessidade das mesmas, mas estas criações exóticas nos dão uma sociedade que é dinâmica, competitiva, forte e envolvente.
