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Integrando as ciências da mente, cérebro e educação

Cena urbana em tons azulados, com figuras humanas sobre uma plataforma e formas inclinadas ao fundo.

Pintura de uma figura deitada junto a uma árvore; três figuras claras parecem flutuar sobre paisagem à beira d’água.

Figura 1_ “O Sonho” de Pierre Puvis de Chavannes (1883)

Um mundo repleto de criatividade, fantasia, mistério, possibilidades e principalmente curiosidade, assim são os sonhos perante os homens desde sua concepção. Uma experiência que possui explicações distintas dependentes dos objetos utilizados para analisá-los sejam eles a religião, a ciência ou a cultura. Em algumas tradições e culturas os sonhos são vistos como mensagens sobrenaturais, previsões que devem ser interpretadas, enquanto para o pesquisador e cientista americano James Allan Hobson, os sonhos são na verdade apenas um produto da atividade cerebral noturna.

Entretanto, na psicanálise e para Freud os sonhos são tidos como um lugar onde se pode realizar os desejos reprimidos, as cargas emocionais armazenadas no inconsciente que são expressas simbolicamente em imagens e sons. Assim, seria possível chegar à raiz dessas emoções estudando os símbolos encontrados no sonho. Portanto, as terapias psicanalíticas usam a interpretação dos sonhos como uma porta de entrada para o conhecimento da mente humana.

Pintura de uma pessoa deitada em cama, com figuras claras acima e uma pessoa em pé à direita, em quarto com janela.
Figura 2_ “Sonho de uma Freira” de Karl Pawlowitsch Brjullow (século XIX). Nessa obra russa é nítida a visão de Freud sobre os sonhos como forma de expressar desejos reprimidos.

Para entender mais sobre o mundo dos sonhos é necessário conhecer um pouco mais sobre o sono e suas etapas. O sono se divide em dois tipos fisiológicos com diferentes EEG que são nomeados de Sono REM e Sono NREM (não-REM). O sono não REM (NREM) é característico de uma grande recuperação física e reposição de energia, papel anabólico, e na classificação histórica, comportava quatro estágios enumerados de 1 a 4. Na classificação da AASM, utiliza-se N1, N2 e N3, sendo os antigos estágios 3 e 4 agrupados em N3. Os quatro estágios históricos descritos a seguir eram:

  • Estágio 1: Estado de sonolência, o EEG é semelhante ao de vigília e dura poucos minutos, é acompanhado por devaneios e contrações musculares principalmente nas mãos e nos pés. O despertar é fácil nessa fase.
  • Estágio 2: Sono leve, o complexo de ondas fica mais lento e o despertar é mais difícil com estimulações sonoras.
  • Estágio 3: Sono pesado, começa a produção de ondas delta e o despertar se torna mais difícil.
  • Estágio 4: Sono profundo, a ondas delta atingem o ápice e se torna muito difícil o despertar.

Depois do estágio 4 acontece o retorno para o estágio 3 e 2, entrando no Sono REM, repetindo algumas vezes esse ciclo durante a noite. O sono REM (do inglês Rapid Eye Movement) é caracterizado pelo movimento rápido dos olhos (relacionados a circuitos oculomotores do tronco cerebral), pela atonia muscular e pela intensa atividade cerebral (ondas beta). O sono REM é de muita importância para o estudo dos sonhos e é nele que ocorre os sonhos mais vívidos.

Imagem surrealista com uma grande forma semelhante a braço ou mão coberta por tecido, projetando-se sobre paisagem árida.
Figura 3_ “O Sono” de Salvador Dali (1937). O Sono é uma obra de Salvador Dali pintada em 1937. Esse sono que é um verdadeiro monstro “crisálido”, cuja morfologia e nostalgia são apoiadas por onze muletas principais. Trata-se de uma representação visual do estado do corpo durante o sono. Segundo a perspectiva surrealista, é durante o sono e o sonho que o ser humano tem o domínio do inconsciente. O equilíbrio delicado da figura indica que, se uma só muleta, das que seguram a cabeça faltar, ela acordará. Isso mostra a fragilidade de algumas etapas do sono.

O sono REM funciona como um substrato para a criação e formação das imagens e movimentações virtuais que constituem os sonhos. Durante a atonia muscular e o bloqueio da percepção real do sono REM o cérebro é forçado a gerar um simulacro virtual de consciência desperta onde iremos viver o sonho. Durante essa etapa podemos notar a intensificação das seguintes áreas cerebrais: o tegmento da ponte, o opérculo parietal, a amigdala e o hipocampo (os dois últimos dependentes do nível emocional encontrado no sonho).

Para decorrer sobre a formulação dos sonhos é necessário considerar e entender o modelo bayesiano. Esse modelo se caracteriza em inferências e formulação de acontecimentos posteriores, por exemplo, é comum chover em setembro, logo observando as nuvens negras no horizonte a probabilidade estimada de chover é atualizada. Segundo a hipótese apresentada no artigo, o cérebro se comportaria dessa forma na formulação do sonho, por meio de inferências ele cria situações continuas que são vivenciadas pelo próprio sonhador como uma simulação, como um treino.

Segundo a hipótese discutida pelos autores, o cérebro se comportaria como um gerador de realidade virtual, criando situações cotidianas que podem ser vivenciadas em um futuro próximo, ou não. É como se fosse um treino da vida real, onde o inconsciente tenta fazer previsões sobre acontecimentos e situações posteriores. Nesse sentido, sonhar pode preparar o cérebro para a imprevisível diversidade de cenários encontrados durante o despertar. A minimização da complexidade fornece uma perspectiva plausível da diversidade dos sonhos.  O pesquisador e cientista norte-americano James Allan Hobson retratou “Todos os sonhos são animados, nós nunca ficamos quietos, sonhamos sobre correr, andar, mesmo voar, é como um programa de ensaio para o cérebro”.

Quadro de animação com várias figuras reunidas em uma cama que parece suspensa no ar.
Figura 4_ “O pequeno Nemo no País dos Sonhos” de Winsor McCay (personagem criado em 1905). O personagem criado viaja em uma cama voadora com criaturas fantásticas e desbrava um mundo maravilhoso e completamente caótico. Na animação é nítida a ideia de que tudo o que Nemo vive é apenas fruto de seus sonhos, mas em nenhum momento da trama ele nota a quebra de realidade, assim como nós em um sonho fantasioso. Como uma simulação de realidade pode ser caótica e fantasiosa e não nos darmos conta disso durante o sonho?

Nem sempre essa simulação será lógica, muito pelo contrário, a grande maioria dos sonhos está repleta de fantasia e de impossibilidades, entretanto, isso não se torna delirante ou defeituoso para o sonhador, é como se tudo aquilo fosse normal e lógico. Isso porque na ausência das restrições sensoriais, os preceitos vividos, as crenças delirantes e os defeitos cognitivos deixam de ser fantasiosos – porque esses atributos são apenas definidos em relação à evidência sensorial. No entanto, no sono não existem evidências sensoriais e o único imperativo é selecionar livremente entre as simulações que podem entreter o cérebro adormecido com base no modelo Bayesiano já explicado.

A diminuição da ativação de regiões frontais durante o sonhar pode contribuir para manter essa realidade virtual intacta e real para o sonhador, pois afeta a lucidez e a capacidade de definir o que é lógico do que é fantasioso. Algumas pessoas em algumas circunstâncias podem notar a quebra dessa realidade dentro do sonho e adquirir consciência de que tudo aquilo não é real. Isso se chama Sonho lúcido.

Cena urbana em tons azulados, com figuras humanas sobre uma plataforma e formas inclinadas ao fundo.
Figura 5_ “Inception” de Christopher Nolan (2010). O longa chamado de “A Origem” no Brasil ganhou 4 prêmios no Oscar e mais 22 em outros diferentes eventos, tem como tema central o Sonhar. No filme, a personagem da atriz Ellen Page é chamada de arquiteta, justamente por ser a responsável por modificar todo cenário do sonho como uma maquete, colocando prédios, carros, pessoas e até mesmo fazendo coisas impossíveis como dobrar uma cidade ao meio como na figura. No sonho lúcido o sonhador é capaz de realizar tantas ações quanto sua criatividade permitir. Na ficção é possível entrar no sonho de terceiros e implantar ideias em seu inconsciente para se manifestar quando desperto. É interessante pensar no assunto tendo em vista que tratamos o sonho como um treinamento para viver o amanhã, ou seja, a formulação de novas ideias.

No sonho lúcido, o sonhador tem consciência de que está sonhando, em vez de acreditar que está acordado. Existem dois tipos de consciência, a do sono e a da vigília, mas nos sonhos lúcidos as duas estão presentes. Esse tipo de sonho ocorre predominantemente no sono REM, Nota editorial (2026-10-03): a revisão de Baird, Mota-Rolim e Dresler (2019) descreve também registros pouco numerosos em NREM, com limitações; a exclusividade afirmada no artigo de 2014 foi delimitada nesta republicação. as ondas do EEG se tornam mais agitadas e o lobo frontal aumenta sua atividade consideravelmente. Nota editorial (2026-10-03): não foi possível confirmar a base específica da faixa etária e das ocupações mencionadas nesta frase do resumo original; esses recortes foram omitidos desta edição, sem estabelecer perfil necessário de quem pode ter sonhos lúcidos.

É muito interessante mencionar que no sonho lúcido o sonhador se divide em dois, um personagem de si mesmo e um espectador, como se a mente se tornasse duas mentes distintas. O espectador se comporta como um “encorajador”, para ajudar na compreensão, ele se comporta como um “arquiteto” mencionado na figura 5. A funcionalidade “cérebro dividido” do sonho lúcido pode se tornar uma rica fonte de informação para estudos sobre a vontade e a meta-consciência.

Ilustração de fantasia com uma figura diante de um grande círculo ornamentado, cercada por animais e formas coloridas.
Figura 6_ Apanhador de sonhos. É um amuleto da cultura indígena Ojibwa (EUA e Canadá), que consiste em um aro feito de um galho de salgueiro revestidos com tiras de couro ao qual são entrelaçados vários fios como teias de aranha e neles amarrados contas, no aro são penduradas penas de coruja e águia. Na cultura Ojibwa acredita-se que com o cair da noite o ar se encher de sonhos bons e ruins por isso os apanhadores de sonho eram colocados em cima do leito das crianças para que ele filtrasse os sonhos bons dos ruins evitando assim os pesadelos. Esse objeto se disseminou na década de 70 com o movimento Panameríndio e atualmente pode ser encontrado praticamente em qualquer lugar do mundo.

Já existem evidencias que comprovam que o sono REM esta presente desde a vida uterina e persistem com a vida pós-natal de forma crescente e relevante. Na hipótese discutida, o sono ativo dos bebês recém-nascidos teria importância para a construção de um modelo gerador de realidade virtual; a presença de experiência subjetiva de sonhos não pode ser afirmada diretamente apenas pela observação desse estado, afinal, é um mundo que eles ainda não conhecem, onde tudo é novo com muitos dados experimentais para assimilar e entender. Assim, o sono REM pode ter um importante papel no neurodesenvolvimento e na plasticidade. Nota editorial (2026-10-03): preservou-se a interpretação de Hobson, Hong e Friston (2014) como hipótese de realidade virtual; REM fetal/neonatal e relato de sonhos em pessoas capazes de descrevê-los são evidências distintas. As leituras psicanalíticas e artísticas permanecem interpretações atribuídas.

Dada à fenomenologia dos sonhos pode-se concluir que os sonhos e a realidade são espelhos um do outro. Em vez de argumentar que os sonhos precedem ou que a realidade precede, pode-se argumentar que a realidade e os sonhos são duas faces da mesma moeda que interagem de forma complementar e recíproca. Nossos dois estados de consciência se reforçam mutuamente em prol do nosso desenvolvimento e evolução. Mesmo com tantos estudos e descobertas, o mundo dos sonhos continua misterioso e fantástico, guardando segredos da mente humana que ainda não sonhamos em descobrir.

REFERÊNCIAS

Virtual reality and consciousness inference in dreaming. J. Allan Hobson, Charles C.-H. Hong, and Karl J. Friston. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4191565/

http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=53623&op=all

 

Filmes assistidos para a complementação da Resenha:

A Origem de Christopher Nolan (2010)

O Pequeno Nemo de Masami Hata (1992)

Retrato de uma pessoa sorrindo em selfie, com casaco escuro e forro estampado.
Kaique Miranda e Silva, 22 anos, natural de Morrinhos, graduando do curso de Medicina-XIVa turma-FCS-Universidade Federal da Grande Dourados no curso de Medicina, bolsista do projeto de extensão intitulado Neurosessão.
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