Organização Ciências e CogniçãoCNPJ 13.413.391/0001-18

Integrando as ciências da mente, cérebro e educação

Pintura abstrata em vermelho, laranja e azul com formas curvas sobrepostas.
Pintura abstrata em vermelho, laranja e azul com formas curvas sobrepostas.
Angst -by Pamela Ott

Nota editorial (2026-10-03): revisão histórica de 2015. Resultados em roedores não equivalem a eficácia clínica no tratamento da ansiedade. Antagonismo de CB1 não é recomendação terapêutica: a EMA recomendou suspender rimonabanto em 2008 por riscos psiquiátricos. Referências não recuperadas são indicadas como ausentes, sem inventar mecanismos ou indicação.
Resumo:

O medo é uma das emoções mais esclarecidas em termos de mecanismos cerebrais. A busca pela compreensão dos mecanismos de aprendizagem associados ao medo condicionado tem sido cada vez maior nos últimos anos, mediante a constatação de que eles podem participar da etiologia dos transtornos de ansiedade humanos. Baseando-se na atuação dos canabinoides nesses distúrbios, foram investigados moduladores desse sistema em estudos experimentais, sem estabelecer indicação clínica de antagonistas sintéticos para esses transtornos. O presente artigo busca compreender a atuação dos canabinoides no condicionamento do medo.

O medo é uma resposta adaptativa gerada na presença de estímulos que configuram um contexto ameaçador à homeostase. 1,39 Os sistemas neurais responsáveis por essa resposta são organizados hierarquicamente, de modo que possam retornar a atividade de base quando a ameaça se torna inexistente. 2,3 Trata-se de uma emoção básica, que pode ser interpretada como uma associação cognitiva que relaciona a experiência do medo aos seus eventos, resultados e significados. 4

Retrato em preto e branco de um rosto com a boca aberta, contra fundo escuro.

Os transtornos de ansiedade são caracterizados pelo medo excessivo e comportamentos de esquiva, muitas vezes em resposta a objetos ou situações específicas, na ausência de verdadeiro perigo , e eles são comuns na população em geral. 5,6
Na segunda metade do século XIX, Darwin iniciou estudos sobre a neurobiologia do medo. 7,40 Desde então, vários modelos foram propostos na investigação dos comportamentos emocionais, mas o condicionamento Pavloviano mostrou-se o mais adequado. 8 Esse modelo consiste em uma aprendizagem associativa, na qual um estímulo condicionado inicialmente neutro, como um tom, é associado a um estímulo incondicionado aversivo, como um choque nas patas. 9,10 Essa associação resulta em um conjunto de respostas comportamentais e
fisiológicas, conhecido como resposta condicionada, que permite ao animal escapar ou adaptar-se ao estímulo não condicionado. 11,12,13 Após o emparelhamento desses estímulos, o estímulo condicionado adquire a capacidade de induzir a resposta condicionada, de maneira independente. Essa é uma evidência observável de que nesse processo, uma memória emocional é estabelecida. 9,10

Após o condicionamento, a memória do medo de curto prazo adquirida está consolidada em uma memória mais estável a longo prazo , um processo que envolve uma nova expressão gênica e síntese de proteínas. 14 Interferências farmacológicas em mecanismos de consolidação ou reconsolidação alteraram respostas de memória em modelos experimentais; isso não demonstra apagar permanentemente memórias de medo em pessoas. 15

Diagrama com cortes do encéfalo e rótulos para amígdala, hipocampo, tálamo e núcleo central da amígdala.
amígdala-posição anatômica e núcleos da base.

O sistema neural responsável pela aprendizagem associativa do medo e pela sua expressão é coordenado pela amígdala. 16,17 Esses circuitos envolvem as áreas sensoriais responsáveis pelo processamento do estímulo, que convergem para o núcleo lateral da amígdala, onde ocorre a aprendizagem, através da plasticidade sináptica e, em seguida, flui para o núcleo central, onde ocorre a expressão de respostas condicionadas – controle do
comportamento defensivo, congelamento, e as respostas autonômicas e endócrinas. 18-21.

Esquema em inglês com estímulo sensorial, tálamo, amígdala, córtices e hipocampo conectados por setas.
Vias direta e indireta da percepção-pela via direta, os aspectos cognitivos e os detalhes do estímulo não são apreendidos, mas a este já é atribuído imediatamente um valor emocional positivo, ou negativo.

 

Acredita-se que o mecanismo de aprendizagem associativa Hebbiana e a plasticidade sináptica estejam sujeitos à atuação de neuromoduladores, como os transmissores de monoamina, como norepinefrina e dopamina, liberados em situações emocionais para regulação da atividade glutamatérgica. 22-26 Esse modelo, no qual monoaminas atuam na modulação da aprendizagem e neuromoduladores atuam no condicionamento do medo, é denominado modulação heterossináptica da plasticidade. 22

Ilustração de um corte medial do encéfalo com rótulos em português para córtices, giro do cíngulo, hipotálamo e hipocampo.
Circuito de Papez

O sistema endocanabinóide parece ter um papel importante em aspectos específicos da aprendizagem e da memória. Os Canabinóides endógenos, ECBs, são mensageiros retrógrados que atuam no feedback inibitório tanto da transmissão excitatória quanto inibitória, através da ativação de receptores CB1 pré-sinápticos. Os ECBs também atuam como mediadores de várias formas de plasticidade sináptica, e sua desregulação está associada a transtornos de humor. 27

Esquema em painéis com estruturas químicas, folhas de cannabis e uma sinapse com receptores identificados.
canabinóides

Os receptores CB1 e CB2 pertencem à superfamília dos receptores acoplados à proteína G. 28 O receptor de CB1 está amplamente distribuído nos terminais neuronais 29,30, enquanto os receptores CB2 estão extensivamente expressos no sistema imunitário, embora também estejam presentes no cérebro. 31-33.

Diagrama de uma sinapse com canais, proteínas e setas que representam etapas de sinalização celular.
Receptores canabinóides (RC) são acoplados à proteína G: Os RC se encontram inseridos na membrana celular, acoplados às proteínas-G, primeiros componentes no processo de transdução de sinais, e à enzima adenilato ciclase (AC).
O aumento do cálcio intracelular é fator desencadeante para que o precursor de endocanabinóide acoplado à membrana seja sintetizado, clivado e liberado
Após essa interação, há reações em vários componentes intercelulares, que incluem a inibição da AC, abertura dos canais de potássio, diminuindo a transmissão dos sinais e fechamento dos canais de cálcio voltagem-dependentes, levando a um decréscimo na liberação de neurotransmissores.

O elevado nível de expressão dos receptores CB1 em áreas do cérebro envolvidas na regulação das funções de humor e cognição como amígdala, córtex pré-frontal e hipocampo, corrobora o papel do sistema Endocanabinóide em processos emocionais, regulação de humor e ansiedade e na fisiopatologia da depressão.

O receptor CB1 exerce influência sobre a regulação glutamatérgica e GABAérgica na ansiedade. Os endocanabinóides ativam os receptores CB1, e através de um mecanismo retrógrado, diminuem a liberação desses neurotransmissores. 34 O elevado nível de expressão dos receptores CB1 em áreas do cérebro envolvidas na regulação das funções de humor e cognição como amígdala, córtex pré-frontal e hipocampo, corrobora o papel do sistema endocanabinóide em processos emocionais, regulação de humor e ansiedade e na fisiopatologia
da depressão. 38

Desenho lateral do encéfalo com áreas coloridas e rótulos para gânglios da base, hipocampo e cerebelo.

A ativação dos receptores CB1 em diferentes áreas do cérebro parece promover comportamentos distintos. No estudo de Roohbakhsh et al. (2007), a administração de um agonista de CB1 no CA1 do hipocampo dorsal de ratos produziu comportamento do tipo ansiogênico; Moreira et al. (2008) estudaram inibição de FAAH em camundongos e observaram efeitos do tipo ansiolítico dependentes de CB1. Nota editorial (2026-10-03): não foi confirmada a correspondência das referências 35–36 com toda a lista regional original, que foi omitida neste ponto. A referência específica de Marco e Rubino (2009) não foi recuperada para essa afirmação. Não se infere saturação regional de receptores nem eficácia clínica desses modelos.

Caroline de Barros Viegasa, Letícia Mie Moriyaa, Sandro Barreto dos Santosa: Acadêmicos de medicina da FCS/ UFGD – XIIIa turma

REFERÊNCIAS
1. Davis M. The role of the amygdala in conditioned and unconditioned fear and anxiety. In:
Aggleton JP, editor. The Amygdala: a functional analysis. Oxford; Oxford University Press;
2000. pp 213–287.
2. Victor AM, Bernstein GA. Anxiety disorders and posttraumatic stress disorder update.
Psychiatr Clin North Am. 2009;32:57–69.
3. Weisberg RB. Overview of generalized anxiety disorder: epidemiology, presentation,
and course. J Clin Psychiatry. 2009;70:4–9.
4. Izard CE. Basic emotions, relations among emotions, and emotion-cognition
relations.Psychol Rev. 1992; 99:561–565.
5. Hess WR, Brügger M. Das subkortikale zentrum der affectiven abwerreaktion. Helv
Physiol Pharmacol Acta. 1943;1:33-52.
6. Shin LM, Liberzon I. The neurocircuitry of fear, stress, and anxiety disorders.
Neuropsychopharmacology. 2010; 35:169–191.
7. LeDoux JE. Emotion circuits in the brain. Annu Rev Neurosci. 2000;23:155–184.
8. Mamiya N, Fukushima H, Suzuki A, Matsuyama Z, Homma S, Frankland PW, Kida S.
Brain region-specific gene expression activation required for reconsolidation and
extinction of contextual fear memory. J Neurosci. 2009;29:402–413.
9. Whalen PJ, Shin LM, McInerney SC, Fischer H, Wright CI, Rauch SL. A functional
MRI study of human amygdala responses to facial expressions of fear versus
anger.Emotion. 2001;1:70–83.
10. Rauch SL, Whalen PJ, Shin LM, et al. Exaggerated amygdala response to masked facial
stimuli in posttraumatic stress disorder: a functional MRI study. Biol
Psychiatry.2000;47:769–776.
11. Blair HT, Schafe GE, Bauer EP, Rodrigues SM, LeDoux JE. Synaptic plasticity in the
lateral amygdala: a cellular hypothesis of fear conditioning. Learn Mem. 2001;8:229–
242.
12. Maren S, Quirk GJ. Neuronal signaling of fear memory. Nat Rev Neurosci.
2004;5:844–852.
13. McGaugh JL. The amygdala modulates the consolidation of memories of emotionally
arousing experiences. Annu Rev Neurosci.2004;27:1–28.
14. Pape HC, Pare D. Plastic synaptic networks of the amygdala for the acquisition,
expression, and extinction of conditioned fear. Physiol Rev. 2010;90:419–463.
15. Tronson N, Taylor J (2007) Molecular mechanisms of memory reconsolidation. Nature
Reviews Neuroscience 8: 262–275.
16. Phelps EA, LeDoux JE. Contributions of the amygdala to emotion processing: from
animal models to human behavior. Neuron.2005;20:175–187.
17. McGaugh JL, Cahill L, Roozendaal B. Involvement of the amygdala in memory
storage: interaction with other brain systems.Proc Natl Acad Sci USA. 1996;93:13508–
13514.
18. LeDoux JE. Emotion circuits in the brain.Annu Rev Neurosci. 2000;23:155–184.
19. Fanselow MS, Poulos AM. The neuroscience of mammalian associative learning. Annu
Rev Psychol. 2005;56:207–234.
20. Maren S. Synaptic mechanisms of associative memory in the amygdala.
Neuron.2005;47:783–786.
21. Sotres-Bayon F, Quirk GJ. Prefrontal control of fear: more than just extinction. Curr
Opin Neurobiol. 2010;20:231–235.
22. Bailey CH, Giustetto M, Huang YY, Hawkins RD, Kandel ER. Is heterosynaptic
modulation essential for stabilizing Hebbian plasticity and memory? Nat Rev Neurosci.
2000;1:11–20.
23. Carew TJ, Hawkins RD, Abrams TW, Kandel ER. A test of Hebb’s postulate at
identified synapses which mediate classical conditioning in Aplysia. J
Neurosci.1984;4:1217–1224.
24. Glanzman DL. Common mechanisms of synaptic plasticity in vertebrates and
invertebrates. Curr Biol. 2010;20:R31–36.
25. Tully K, Bolshakov VY. Emotional enhancement of memory: how norepinephrine
enables synaptic plasticity. Mol Brain.2010;3:15.
26. McGaugh JL. Memory–a century of consolidation. Science. 2000;287:248–251.
27. Sidhpura N, Parsons LH. Endocannabinoid-mediated synaptic plasticity and addictionrelated behavior. Neuropharmacology (2011) 61:1070–87.
28. Devane W., Hanus L., Breuer A., Pertwee R., Stevenson L., Griffin G., et al. (1992)
Isolation and structure of a brain constituent that binds to the cannabinoid receptor.
Science 258: 1946–1949.
29. Armony JL, Servan-Schreiber D, Cohen JC, LeDoux JE. 1996. Emotion and cognition
interactions in the thalalmo-cortico-amygdala network: theory and model. Cogn.
Neurosci. Soc. Abstr. 3:76
30. Callén L., Moreno E., Barraso-Chinea P., Moreno-Delgado D., Cortes A., Mallol J., et
al. (2012) Cannabinoid receptors CB1 and CB2 form functional heteromers in the brain.
J Biol Chem 287: 20851-20865.
31. Gong JP, Onaivi ES, Ishiguro H, Liu QR, Tagliaferro PA, et al. (2006) Cannabinoid
CB2 receptors: immunohistochemical localization in rat brain. Brain Res 1071: 10–23.
32. Piomelli D (2003) The molecular logic of endocannabinoid signalling. Nat Rev
Neurosci 4: 873-884.
33. Onaivi ES, Ishiguro H, Gong JP, Patel S, Perchuk A, et al. (2006) Discovery of the
presence and functional expression of cannabinoid CB2 receptors in brain. Ann N Y
Acad Sci 1074: 514–36.
34. Wilson RI, Nicoll RA. Endocannabinoid signaling in the brain. Science. 2002;296:678–
682.
35. Moreira et al: Moreira FA, Kaiser N, Monory K, Lutz B. 2008. Reduced anxiety-like
behaviour induced by genetic and pharmacological inhibition of the endocannabinoiddegrading enzyme fatty acid amide hydrolase (FAAH) is mediated by CB1 receptors.
Neuropharmacology 54:141–50.
36. Rubino et al: Marco EM, Rubino T, Adriani W, Viveros MP, Parolaro D, Laviola G.
Long-term consequences of URB597 administration during adolescence on cannabinoid
CB1 receptor binding in brain areas. Brain Res. 2009;1257:25–31.
37. Roohbakhsh et al, 2007: Roohbakhsh, A., Moghaddam, A.H., Massoudi, R., Zarrindast,
M.R., 2007. Role of dorsal hippocampal cannabinoid receptors and nitric oxide in
anxiety like behaviours in rats using the elevated plus-maze test. Clin. Exp. Pharmacol.
Physiol. 34, 223 e 229,
38. Hill MN, Hillard CJ, Bambico FR, Patel S, Gorzalka BB, Gobbi G. The therapeutic
potential of the endocannabinoid system for the development of a novel class of
antidepressants.Trends Pharmacol Sci. 2009;30(9):484-93.
39. Bolhuis, J. J., Fitzgerald, R. E., Dijk, D. J., Koolhaas, J. M. 1984. The corticomedial
amygdala and learning in an agonistic situation in the rat. Physiol. Behav. 32: 575-79.
40. Damasio A. R. (1994). Descartes’ Error: Emotion, Reason, and The Human Brain. New
York: G.P. Putnam’s Sons.
41. Bliss TVP, Lomo T. 1973. Long-lasting potentiation of synaptic transmission in the
dentate area of the anaesthetized rabbit following stimulation of the perforant path. J.
Physiol. 232:331–56

 

 

Voltar ao início