tópicos de neurociência clínica
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Nota editorial (2026-10-03): prefácio da edição de 2010, divulgado nesta página em 2015. Dados epidemiológicos e panorama científico pertencem àquele período; não são estimativas atuais universais. O livro completo não foi revisado clinicamente nesta edição. Alternativa institucional: PDF no repositório UFGD.
Prefácio
Os transtornos de comportamento encontram-se dentre as doenças mais frequentes no mundo atual. Entre as dez maiores causas de incapacitação, quatro são transtornos mentais, a saber, depressão, abuso, ou dependência de substâncias, transtorno do humor bipolar e transtorno obsessivo-compulsivo. As síndromes demenciais estão presentes em cerca de 5% das pessoas na faixa dos 65 anos e em quase 50% daqueles com mais de 85. Elas já representam um problema de saúde pública, o qual se tornará ainda mais preocupante com o envelhecimento global da população. Estes dados tornam nítida a importância do estudo do comportamento humano em todos os cursos da área da saúde. Em relação à formação médica, este conhecimento não pode ser visto como algo concernente apenas às especialidades psiquiatria e neurologia, mas como parte de um saber essencial de todo profissional.
As últimas décadas têm presenciado um enorme avanço na compreensão dos mecanismos biológicos cerebrais subjacentes às funções mentais. Uma nova disciplina_a neurociência_ foi se estruturando e ganhando cada vez mais espaço e atenção. Ela resulta de uma combinação eclética de diferentes áreas, como a biologia molecular, a psicologia, a embriologia, a neurologia, a psiquiatria, a medicina nuclear, mas também a antropologia, a filosofia, dentre outras. O objeto de estudo é a mente humana em seus múltiplos aspectos: o desenvolvimento, o envelhecimento, a cognição, a emoção, o comportamento e suas respectivas alterações.
Em especial as novas técnicas de biologia molecular, genética e imageamento vêm permitindo desvendar a fisiologia neuronal e correlacioná-la aos diversos fenômenos observáveis do comportamento humano.
Este saber não se opõe às abordagens humanísticas da psique, mas, ao contrário, vai ao encontro das mesmas, respaldando muitas de suas observações. Por exemplo, através de técnicas de neuroimagem, é possível investigar alterações de atividade e metabolismo cerebral associadas à psicoterapia. [Precisão editorial,2026-10-03: por exemplo, Goldapple e colaboradores (2004) mediram mudanças metabólicas por PET associadas à resposta à terapia cognitivo-comportamental. Esse tipo de imagem não demonstra diretamente uma mudança de conexões sinápticas individuais.] A biologia molecular fornece vários indícios de que experiências traumáticas na infância podem se associar a mudanças persistentes do sistema neuroendocrinoimunológico, aumentando a vulnerabilidade da pessoa a diversas doenças futuras. Outro exemplo são evidências de ativação de áreas do sistema límbico (relacionado às emoções) durante a produção de sonhos. Não se trata, portanto, de um reducionismo biológico, mas de uma busca de compreensão integradora.
O intuito desta obra é expor alguns princípios básicos da neurociência através da abordagem de temas clinicamente relevantes, estabelecendo assim, uma conexão entre o saber científico e a sua aplicação prática. Os capítulos são o resultado de reuniões de estudo, discussões clínicas e pesquisas de revisão realizadas por graduandos do curso de medicina sob a minha orientação e supervisão docente. Esta atividade se deu a partir da introdução da neurociência como disciplina optativa na grade curricular.
Houve preocupação em que o texto fosse fluente, de fácil leitura e, acima de tudo, estimulante e capaz de despertar o interesse por esta fascinante área do conhecimento.
Elisabete Castelon Konkiewitz
