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Integrando as ciências da mente, cérebro e educação

Fotografia de uma pessoa reclinada em uma cadeira usando eletrodos e uma faixa na testa, ao lado de um monitor com gráficos coloridos.

The role of the autonomic nervous system in Tourette Syndrome.

Hawksley J, Cavanna AE, Nagai Y.Front Neurosci. 2015 May 27;9:117. doi: 10.3389/fnins.2015.00117. Review. PMID:26074752Free PMC Article

Pintura expressiva com figuras sobrepostas e linhas desenhadas em torno dos rostos e corpos.
https://aegyokawaiisneurodiversityblog.wordpress.com/2015/02/17/cant-control-the-anatomy-of-tourette-syndrome/

A Síndrome de Tourette (ST) é um transtorno caracterizado por múltiplos tiques motores e pelo menos um vocal, não necessariamente simultâneos, com duração superior a um ano e início antes dos 18 anos, após exclusão de efeitos de substâncias e de outras condições médicas. [Nota editorial (2026-10-03): impacto importante na vida não é requisito diagnóstico; esclarecimento conforme CDC/DSM-5-TR, sem substituir avaliação profissional.]

Sequência de quatro desenhos do rosto de uma criança com diferentes expressões.

A ST pode estar associada à baixa autoestima, ao comprometimento do rendimento escolar e à presença de dificuldades nas relações socioafetivas e familiares. Foi descrita pela primeira vez em 1825, pelo médico francês Jean-Marc Gaspard Itard, que atuava na Instituição Real para surdos-mudos de Paris. Os relatos de Itard referem-se ao estranho comportamento da Marquesa de Dampièrre, nobre francesa de 26 anos que emitia sons e proferia obscenidades, o que a obrigou a viver reclusa durante grande parte de sua vida.

De acordo com este estudo, a ST é mais comum do que o estimado historicamente, afetando entre 0,3 e 0,4% das crianças em todo o mundo, com alguns relatórios indicando uma prevalência de até um por cento da população geral. A ST é mais comum em crianças, sendo quatro vezes mais comum no sexo masculino.

Ilustração do encéfalo com estruturas internas destacadas e identificadas em inglês.
gânglios da base

Geralmente é aceito que uma hipótese para a ST envolve disfunção da ação inibitória dentro de um circuito córtico-estriato-tálamo-cortical que suprime impulsos premonitórios para o movimento. As alterações anatômicas e neuroquímicas que fundamentam as manifestações clínicas da ST não são claras.

Ilustração da cabeça em corte com núcleos cerebrais coloridos e rótulos em inglês.

No entanto, vários estudos têm sugerido que alterações funcionais e estruturais nos circuitos em que os núcleos da base estão envolvidos, e em outros sistemas neuronais, desempenham um papel na complexa sintomatologia da doença.

 

Diagrama colorido de vias entre córtex, estriado, substância negra, globo pálido e tálamo, com setas e rótulos em português.

 

O córtex frontal, os gânglios basais e o tálamo desempenham um papel importante na coordenação e no controle motor. Enquanto o córtex motor e o pré-motor dão a ordem para o movimento voluntário, os gânglios da base atuam selecionando o padrão de movimento, ou o comando motor que será inibido e o que será liberado para a realização de fato.

 

Algumas investigações através de neuroimagem revelaram aumento na ativação em áreas motoras em pacientes com ST, em comparação com controles saudáveis.

Três diagramas de circuitos cerebrais, rotulados “Motor”, “Associative” e “Limbic”.

Estudos com diferentes técnicas de ressonância magnética (RM) e investigações eletrofisiológicas que exploraram a inibição neuronal identificaram alterações em áreas cerebrais no nível dos circuitos córtico-estriado-tálamo-corticais, que geram uma desinibição dos sistemas motores e límbicos, desconhecendo-se, no entanto, ainda a alteração subjacente a este déficit inibitório.

Diagrama de círculos sobrepostos rotulados TICS, ADHD, OCD e “Behavioral Problems”, com setas e texto em inglês.

 

A ST é uma situação clinicamente complexa, que pode implicar em significativa incapacidade familiar e social. Os indivíduos que têm esta síndrome são muitas vezes mal compreendidos e a situação nem sempre é bem diagnosticada, dado que os sintomas surgem geralmente numa fase da vida particularmente vulnerável das pessoas afetadas — infância e adolescência. A abordagem terapêutica é multifacetada e implica na busca de novas estratégias.

Pacientes com ST geralmente relatam sintomas consistentes com o desequilíbrio do Sistema nervoso autônomo (SNA), sob a forma de hiperatividade simpática, como aumento de frequência cardíaca, da temperatura corporal, nervosismo e agitação. O SNA contém nervos com fibras sensoriais e motoras que conferem controle aos mecanismos involuntários e vitais (funções vegetativas) fundamentais à homeostase (equilíbrio dinâmico do metabolismo) como a contração da musculatura lisa das vísceras, a secreção glandular, os ritmos cardíaco e respiratório. O SNA é dividido em Sistema nervoso simpático e Sistema nervoso parassimpático, dois conjuntos distintos de nervos que controlam, em geral, os mesmos órgãos de forma antagônica. Os nervos simpáticos têm ação de colocar o organismo em estado de prontidão e alerta em situações de estresse. Os nervos parassimpáticos atuam levando o organismo a um estado de relaxamento.

O aprendizado de técnicas de relaxamento pode atuar terapeuticamente em pacientes com ST, entretanto em alguns estudos apenas o relaxamento demonstrou não ser eficaz na redução da frequência dos tiques.  A terapia de relaxamento é muitas vezes composta por redução do tônus muscular, controle da respiração, no entanto normalmente falta o acompanhamento das medidas fisiológicas para elucidar os mecanismos de efeito terapêutico.

Fotografia de uma pessoa reclinada em uma cadeira usando eletrodos e uma faixa na testa, ao lado de um monitor com gráficos coloridos.
Biofeedback-
Retroalimentação Biológica
Biofeedback é um termo do inglês criado em 1969 para descrever o processo de leitura, armazenamento e amplificação de sinais fisiológicos emitidos por um organismo vivo e apresentação desse através de mecanismos e interfaces compreensíveis, como mídias. A retroalimentação em tempo real proporciona ao organismo a possibilidade de tomar consciência das informações obtidas e as aprimorar, através dos mecanismos de aprendizagem, treinamento e autorregulação. São retroalimentados sinais provenientes de diferentes sistemas que formam o organismo, mas não limitados a esses: Sistema Nervoso Central (SNC) NEUROFEEDBACK, Sistemas Nervosos: Periférico (SNP) e Autônomo (SNA) BIOFEEDBACK.
Texto disponível em:http://conferencia2015.abbio.com.br/institucional/biofeedback/
Mais informações: http://www.requiemsaint.com/modern-use-of-biofeedback/

Além das diferentes técnicas de relaxamento, a modulação do sistema nervoso autônomo também pode ser realizada
através da estimulação do nervo vago (ENV) e através de biofeedback. O ENV funciona com auxílio de um dispositivo pulsátil, que, ao estimular eletricamente o nervo vago, modula diretamente sinais aferentes interoceptivos, que são mensagens da periferia (dos terminais nervosos que aferem o estado dos órgãos internos, como frequência cardíaca, pressão arterial, motilidade gastro-intestinal, pH do sangue) para o sistema nervoso central. Alguns estudos relataram melhorias através de ENV nos sintomas motores e vocais em pacientes com ST, entretanto a eficácia deste tratamento não foi confirmada até o momento por estudos clínicos sistematizados.

Uma modalidade, o biofeedback eletromiográfico, é realizada colocando-se eletrodos sobre a pele que recobre um músculo. Estes eletrodos captam e transmitem ao computador um sinal eletromiográfico que corresponde à resposta do músculo contraído. Este sinal é transformado em linhas luminosas com variedade de cores na tela do computador, permitindo ao paciente visualizar o grau de contração ou de relaxamento do grupo muscular trabalhado.  É esperado que o paciente vá aos poucos obtendo maior controle e consciência da contração e do relaxamento muscular. É um método que pode favorecer a participação do paciente, com resultados dependentes da condição e do protocolo estudados. [Precisão editorial, 2026-10-03: a revisão de 2015 resenhada descreve experimentos de biofeedback eletrodérmico, pela condutância da pele, distintos deste exemplo eletromiográfico. Resultados breves e pequenos estudos não confirmam eficácia geral do biofeedback ou da estimulação vagal para a síndrome; a própria revisão aponta limitações e resultados não conclusivos.]

            Esses estudos fornecem suporte variável para a noção que ambos os sistemas nervosos simpático e parassimpático podem ser mais elucidados, para assim descobrir sua influência na expressão dos tiques, bem como sua frequência. No entanto faltam dados conclusivos, refletindo limitações experimentais, e a complexidade funcional da ST, o que torna difícil diferenciar o funcionamento autônomo dos pacientes a partir de controles saudáveis.

 

Referências

 

Lantyer, Angélica da Silva, Viana, Milena de Barros, & Padovani, Ricardo da Costa. (2013). Biofeedback no tratamento de transtornos relacionados ao estresse e à ansiedade: uma revisão crítica. Psico-USF, 18 (1), 131-140.

 

Muñoz S, R. L., Júnior, E. D. F., Neto, N. G. P., & Rocha, A. B. (2012). Psicocirurgia: revisão integrativa sob o prisma neuroético Psychosurgery: integrative review from a neuroethical perspective. Revista Brasileira de Bioética, 8, 1-4.

 

Oliveira, A., & Massano, J. (2012). Síndrome de Gilles de La Tourette: Clínica, diagnóstico e abordagem terapêutica. Arquivos de Medicina, 26 (5), 211-217.

 

Serratrice, J., Verschueren, A., & Serratrice, G. (2013). Sistema nervoso autônomo. EMC-Neurologia, 13 (2), 1-17.

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