- INTRODUÇÃO
“Yoga é transformar nossa consciência humana em consciência Divina”
Jaideva Singh
Nota editorial (2026-10-03): resenha de 2015. Corrigidos o protocolo atribuído a Oken, a classificação histórica e promessas clínicas por postura. Os estudos consultados não demonstram todos os benefícios descritos nem substituição do tratamento individual; as sugestões autorais abaixo permanecem históricas, não um protocolo clínico validado.
A esclerose múltipla é um processo em que uma resposta imune do próprio indivíduo danifica a mielina presente no sistema nervoso central. O início da doença ocorre, tipicamente, em jovens adultos, mais comumente no sexo feminino.
Atualmente, não existe cura para tal desordem e sua progressão, a longo-prazo, faz com que o manejo dos sintomas e a qualidade de vida sejam críticos. Existem diversos tratamentos farmacológicos aprovados, porém, devido às suas limitações, os pacientes tendem a procurar intervenções alternativas que complementem o tratamento.
Existem diversos trabalhos de revisões a respeito de como uma abordagem multidisciplinar pode beneficiar pacientes com desordens neurológicas, como a esclerose múltipla. Aqui, vamos tentar entender como e porque o Yoga pode beneficiar pacientes com esclerose múltipla, no sentido de manejo dos sintomas como a dor, saúde mental, fadiga, espasticidade, equilíbrio, controle da bexiga e funcionalidade sexual.
- A ESCLEROSE MÚLTIPLA
A esclerose múltipla é uma doença inflamatória imunomediada do sistema nervoso central, na qual uma resposta imune contra a mielina e outras estruturas neurais provoca lesões desmielinizantes e dano axonal. A bainha de mielina é uma substância lipídica produzida pelos oligodendrócitos e que envolve o axônio dos neurônios garantindo a efetividade na transmissão de sinais (Bitsch et al., 2000).
A resposta imune presente na EM é mediada por células-T e é direcionada contra os oligodendrócitos e a mielina, produzindo efeitos devastadores. A desmielinização é responsável por uma condução neuronal debilitada que causará os sintomas apresentados pelos pacientes. Além do efeito inflamatório na mielina, ocorre também dano axonal, caracterizado pelo acúmulo de proteína precursora de amiloides (Bitsch et al., 2000).
Os sintomas mais comuns são variados e podem incluir fadiga, espasticidade, prejuízo ou perda da mobilidade, disfunções urinárias e intestinais, dor crônica, depressão e déficit cognitivo (Senders et al., 2012).
O início da doença ocorre tipicamente em adultos entre 20 e 40 anos, e é muito mais prevalente no sexo feminino. Estima-se que a EM afete mais de 2,5 milhões de pessoas no mundo, daí a necessidade da busca de terapias adjuvantes (Tullman, 2013).
A classificação histórica citada por Tullman (2013) distinguia quatro cursos de EM. Nota editorial (2026-10-03): a revisão dos descritores de 2013, publicada por Lublin em 2014, retirou “progressivo com recaída” como curso separado e passou a considerar atividade e progressão. O parágrafo seguinte conserva a descrição histórica, não a classificação atual. O diagnóstico mais comum é da remitente com recaída (EMRR), que pode, com o tempo, progredir para um curso progressivo secundário (EMPS). Os outros dois tipos menos comuns são progressivo primário (EMPP) e progressivo com recaída (EMPR) (Tullman, 2013).
Para os pacientes com EMRR, o início dos novos sintomas ocorre durante os períodos de recaída, que são seguidos por períodos de remissão de diferentes durações. No panorama histórico citado, a EMRR pode progredir para EMPS, em que a doença avança sem períodos de remissão. Pacientes com EMPP vivenciam, desde o início da doença, disfunções neurológicas crescentes, sem períodos de remissão. Já os pacientes com EMPR apresentam uma diminuição constante das funções neurológicas, acompanhada de exacerbações ocasionais com piora dos sintomas (Tullman, 2013).
Atualmente, não existe cura para esclerose múltipla, por isso, devido ao caráter crônico e debilitante da doença, é extremamente necessário o manejo da progressão dos sintomas para que se possa assegurar alguma qualidade de vida.
Atualmente, existem alguns fármacos modificadores da doença aprovados pela FDA para reduzir a severidade das recaídas e o aumento das lesões cerebrais. As recaídas podem ser tratadas com corticoesteróides, os quais não apresentam benefícios a longo prazo (Senders et al., 2012).
Devido à severidade dos sintomas e cronicidade da doença, estima-se que mais de metade das pessoas com EM façam uso de terapias complementares adjuvantes ou alternativas ao tratamento farmacológico. A sociedade americana para EM promove uma abordagem ampla, incluindo fisioterapia, exercícios e atividades complementares como o Yoga (Senders et al. 2012).
Um regime de exercícios que combine equilíbrio, fortalecimento, alongamento e aeróbica podem ser benéficos e apreciados para pacientes com EM (Hale et al,. 2003).
- O YOGA
O Yoga é uma prática indiana antiga que combina os elementos descritos acima com uma filosofia de autoconhecimento da mente e do corpo, incorporando respiração, posturas e relaxamento. Existem diversas formas de Yoga, com diferentes intensidades, cruzamento com outras práticas e formas de ensino. Hatha e Kundalini são mais suaves, com focos na respiração e em posturas. Iyengar, com foco nas posturas e no uso de adereços. Ashtanga e Vinyasa que tipicamente, demandam mais esforço físico. Alguns tipos são mais apropriados que outros para pacientes com EM, de acordo com as habilidades físicas individuais. Práticas incorporando adereços e almofadas têm um maior apelo para pacientes com doenças neurodegenerativas (Senders et al., 2012).
Apesar de os efeitos do manejo dos sintomas serem diferentes entre pacientes, o foco do yoga na respiração, movimento e alongamento podem ter efeitos terapêuticos benéficos nos pacientes com EM e aprimorar resultados como autoeficácia, saúde mental e qualidade de vida. Por esta perspectiva, o yoga é um método promissor de controle dos sintomas (Frank and Larimore, 2015).
- O YOGA COMO FORMA DE INTERVENÇÃO
Qualidade de vida é um conceito extremamente amplo, incorporando tanto saúde física como mental. Diversos estudos, como o feito por Oken et al, mostram que a prática regular de yoga pode melhorar algumas medidas de fadiga em pacientes com EM. No ensaio randomizado de Oken et al., yoga e exercício aeróbico melhoraram algumas medidas de fadiga em comparação ao grupo de espera; não houve melhora demonstrada nas medidas de atenção ou alerta.
O propósito do Yoga é trazer um equilíbrio entre corpo e mente. O efeito positivo do Yoga no aumento da qualidade de vida nos pacientes com EM pode ser resultante direta da diminuição do estresse mental e corporal, uma vez que observamos uma melhora da força física, do equilíbrio e a diminuição da fadiga (Parshad, 2004).
Como a EM é uma doença de progressão variável que, com o tempo, leva a desabilidades físicas, psicológicas, sociais e econômicas, os pacientes estão mais propensos à depressão, divórcio e até suicídio. Dessa forma, terapias adjuvantes como o Yoga, se mostram alternativas simples, econômicas e práticas que podem auxiliar o paciente a retomar certa autonomia, fornecendo compatibilidade com a condição vivenciada (Oken et al., 2004).
Ilustração histórica não recuperada (referência de mídia 2914). As demais ilustrações e o texto desta seção foram preservados.
- ORIENTAÇÕES PRÁTICAS E POSIÇÕES SUGERIDAS
No ensaio randomizado de Oken et al. (2004), houve aula semanal de Iyengar yoga com prática em casa durante seis meses. Correção editorial (2026-10-03): o resumo primário não sustenta atribuir a esse ensaio aulas de 30–60 minutos duas ou três vezes por semana. A sugestão autoral que segue não foi validada como esse protocolo.
Sugerimos que a prática possa ser iniciada com um tempo de 30 minutos, 3 vezes por semana, e que esse tempo vá aumentando gradativamente, conforme o paciente passe a apresentar mais segurança e melhora da capacidade física, até que se atinja os 60 minutos. Contudo, trata-se apenas de uma sugestão diante dos estudos citados acima, que deve ser adaptada de acordo com a condição particular de cada paciente.
A seguir, listaremos algumas posições sugeridas pelo estudo de Guner e Inanici que contemplam uma gama de déficits gerados pela EM. Faz-se importante ressaltar que tais posições estão descritas para pessoas hígidas e, para o paciente com EM, podem ser necessárias adaptações e uso de adereços como almofadas e cadeiras para que haja um maior suporte e, consequentemente, uma maior segurança do paciente durante a prática. Acrescentamos que, tais adaptações, devem ser acompanhadas por profissionais experientes, para se assegurar a funcionalidade e a efetividade do Yoga como terapia.
5.1. POSIÇÕES
Nota editorial (2026-10-03): Guner e Inanici estudaram um programa combinado, em pequena amostra, com medidas de fadiga, equilíbrio e marcha; isso não demonstra benefício clínico específico de cada postura. Foram retiradas somente promessas não confirmadas sobre tireoide, órgãos, pressão arterial, depressão, ciática ou degeneração. Mantêm-se nomes, imagens e descrição geral histórica; adaptação e supervisão devem ser individuais.
5.1.1. TADÁSANA
Tadāsana é apresentada como postura de alinhamento e consciência corporal. Não foram confirmados, para essa postura isolada, os efeitos digestivos, pulmonares ou contra degeneração descritos originalmente (Guner e Inanici, 2014).
5.1.2. DANDÁSANA
Dandāsana é apresentada como postura voltada ao alinhamento e ao alongamento de costas e ombros, sem garantir esses resultados em toda pessoa (Guner e Inanici, 2014).
5.1.3. SAVÁSANA
Savāsana é apresentada como postura de repouso e relaxamento; não se confirmaram os benefícios clínicos específicos atribuídos a ela isoladamente (Guner e Inanici, 2014).
5.1.4. UTTANASANA
Uttanasana é apresentada como postura de alongamento posterior. O estudo do programa não confirma prevenção de ciática, correção de hiperlordose ou tratamento de ansiedade por essa postura isolada (Guner e Inanici, 2014).
Ilustração histórica não recuperada (referência de mídia 2896). As demais ilustrações e o texto desta postura foram preservados.
5.1.5. TRIKONASANA
Trikonasana é apresentada como postura de alongamento de pernas, quadris e coluna, sem demonstração de estimulação de órgãos abdominais ou efeito clínico isolado (Guner e Inanici, 2014).



5.1.6.BADDHA KONASANA
Baddha Konasana é apresentada como postura voltada ao alongamento de adutores e à mobilidade do quadril. Não se confirmaram os efeitos orgânicos ou antidepressivos atribuídos à postura isolada (Guner e Inanici, 2014).
Ilustração histórica não recuperada (referência de mídia 2902). As demais ilustrações e o texto desta postura foram preservados.
5.1.7. HALASANA
Halasana é apresentada como postura invertida e de alongamento; não se demonstrou estimulação da tireoide nem benefício clínico específico por essa postura isolada. Sua adequação depende da condição individual (Guner e Inanici, 2014).
5.1.8. BHUJANGASANA
Bhujangasana é apresentada como postura voltada ao trabalho de costas e à flexibilidade, sem garantia de ação benéfica sobre vértebras ou efeito individual em EM (Guner e Inanici, 2014).
Ilustração histórica não recuperada (referência de mídia 2906). As demais ilustrações e o texto desta postura foram preservados.
5.1.9. PASCHIMOTTANASANA
Paschimottanasana é apresentada como postura de alongamento; não se confirmaram efeitos específicos sobre cefaleia, ansiedade ou fadiga por essa postura isolada (Guner e Inanici, 2014).

- CONCLUSÃO Nota editorial (2026-10-03): os desfechos do ensaio Oken de 2004 foram corrigidos nesta revisão. Os dados de fadiga em participantes selecionados não validam todos os benefícios atribuídos às posturas descritas nem equivalência terapêutica geral.
Diante do exposto, os estudos citados sugerem benefícios em algumas medidas físicas ou de fadiga em participantes selecionados, sem demonstração de melhora cognitiva no ensaio de Oken.
No ensaio de Oken et al., participantes selecionados com EM que fizeram yoga ou exercício aeróbico apresentaram melhora em medidas de fadiga; a segurança e a adequação da prática devem ser avaliadas individualmente.
Contudo, apesar das evidências de que os pacientes com EM podem se beneficiar de terapias complementares como o Yoga, ainda existem inconsistências e limitações nos resultados experimentais.
Uma grande limitação dos estudos feitos com o Yoga é que os pacientes criam expectativas de melhora, que podem influenciar nos resultados. Mesmo assim os benefícios da prática de yoga podem ser promissores como complemento, mas o estudo citado não demonstra superioridade geral sobre outras atividades nem melhora cognitiva.
Agatha Rosembarque Marques -acadêmica do curso de Medicina XVa turma-FCS/UFGD
Thamy da Cunha Nakamichi-acadêmica do curso de Medicina XIIa turma-FCS/UFGD
REFERÊNCIAS
- Bitsch, A., Schuchardt, J., Bunkowski, S.,Kuhlman, T.,and Bruck, W.(2000). Acute axonal injury in multiple sclerosis: correlation with demyelination and inflammation.
- Senders, A., Wahbeh, H., Spain,R., and Shinto, L.(2012).Mind-body medicine for multiple sclerosis: a systematic review.
- Tullman, M. J. (2013). Overview of the epidemiology, diagnosis, and disease progression associated with multiple sclerosis.
- Hale, L., Schou, E., Piggot, J., Littman, A.,and Tumilty, S.(2003).The effect of a combined exercise program for people with multiple sclerosis.
- Frank, R. and Larimore, J. (2015). Yoga as a method of symptom management in multiple sclerosis.
- Oken BS, Kishiyama S, Zajdel D, Bourdette D, Carlsen J, Haas M, et al. Randomized controlled trial of yoga and exercise in multiple sclerosis. Neurology, 2004
- Parshad O. Role of yoga in stress management.West Indian Med J, 2004.
- Guner, S., Inanici, F., Yoga Therapy an ambulatory multiple sclerosis assessment of gait analysis parameters, fatigue and balance. Turkey, 2014.











