Nota editorial (2026-10-03): texto de 2017. Yoga é discutido como prática complementar, não tratamento substituto comprovado. Haffner e colaboradores (2006) relataram resultados em 19 crianças; Evans e colaboradores (online em 2017, volume de 2018) apontaram alto risco de viés e ausência de conclusões definitivas sobre intervenções meditativas para TDAH. Benefícios pedagógicos e de bem-estar descritos pelas autoras são possibilidades, não resultados garantidos em toda criança.
O Transtorno de Déficit de Atenção/ Hiperatividade (TDAH) é um quadro caracterizado por um prejuízo nos mecanismos que regulam a atenção e a atividade motora. Os sintomas clássicos incluem desatenção, hiperatividade e impulsividade, que variam conforme a apresentação clínica; há também apresentação predominantemente desatenta.1,6 Algumas crianças que apresentam TDAH podem ter comportamento intempestivo; é comum que ocorra dificuldade em realizar tarefas que exijam atenção, como atividades lúdicas na escola, devido à facilidade de distração por estímulos alheios à atividade proposta.1
A desatenção, um dos sintomas mais frequentes nesta síndrome, é identificada pela grande dificuldade em estar atento a detalhes devido à falha na condição de concentração; esse é um dos motivos pelos quais as crianças com TDAH relutam no envolvimento com atividades que exijam esforço mental constante.1
A agitação corporal pode estar presente, dificultando a realização de tarefas que exijam que permaneçam sentados. A realização de uma tarefa de lazer em silêncio seria assim um grande desafio.1

Além dos comportamentos acima, a autoestima destas crianças encontra-se com frequência rebaixada, o que pode se relacionar ao isolamento social e às barreiras que encontram ao estabelecer as suas relações. Além disso, não podemos desconsiderar que suas atitudes e ações podem ser interpretadas como inadequadas pelo ambiente social, embora capacidades e dificuldades variem, o que ainda é acentuado pelas frustrações que vivem por não conseguirem realizar atividades escolares como os colegas.

Sem sombra de dúvidas, o conjunto das alterações causadas pelo TDAH é notório, tornando muitas vezes o aluno que possui o transtorno estigmatizado.2 Além disso, essa síndrome muitas das vezes não é conhecida por professores e profissionais que farão parte do cotidiano da criança.2 Os dois fatores , a estigmatização e o desconhecimento juntos, tornam mais difícil a abordagem dessas crianças.2,3
Pais e familiares também encontram muita dificuldade em lidar com seus filhos com TDAH, mesmo depois da confirmação do diagnóstico. Para eles, o desafio é ainda maior, tendo em vista a pressão social existente em relação à necessidade de uma educação que enquadre a criança e suas atitudes em padrões ditos normais.1

Até hoje é comum que se diga que o TDAH é um distúrbio essencialmente infantil. Sabemos, porém, que isso não é uma verdade: os sintomas podem persistir na idade adulta, embora a evolução varie entre pessoas, que poderão ou não interferir de modo significativo em suas vidas profissionais, sociais e familiares.1
A identificação e o apoio oportunos de uma equipe multidisciplinar podem favorecer o manejo dos sintomas ao longo da vida, inclusive quando o diagnóstico ocorre na idade adulta.1
Terapias complementares e alternativas

Terapias complementares e medicina alternativa (CAM), incluindo o yoga, são aplicadas em crianças diagnosticadas com TDAH. A frequência do uso de terapias CAM em crianças com TDAH varia entre 12 e 64%.4, mas pouco se sabe sobre a sua eficácia.
Nos últimos anos, a meditação vem sendo cada vez mais divulgada como uma forma de tratamento de condições psicológicas. Pequenos estudos exploraram possíveis benefícios do yoga como complemento no TDAH, sem estabelecer eficácia universal ou confirmar todas as crenças populares, os longos períodos de concentração exigidos durante a prática do yoga funcionariam como um treinamento mental para aumentar gradativamente a capacidade de atenção duradoura, de foco em um único ponto, reduzindo assim o déficit de atenção. Além disso, o yoga, ao produzir um estado de calma e contentamento, contrabalançaria a agitação das pessoas com TDAH.4
A prática do yoga com crianças

O Yoga para crianças se adapta às fases do desenvolvimento motor e cognitivo.7 Desta forma, é possível começar em qualquer idade e a prática vai se basear num programa estruturado para transformar as “brincadeiras” em prática ao longo dos meses ou anos. Assim torna-se uma experiência lúdica, onde os jogos, as histórias e brincadeiras tornam-se um meio para se trabalhar os conteúdos do Yoga. 7
A prática de Yoga fornece ao praticante ferramenta para observar e experimentar as transformações no corpo e na mente. O que ocorre com o adulto ocorre com as crianças em níveis diversos. Cada idade as adaptações das práticas apresentam seus desafios. 7
Embora para cada fase do desenvolvimento haja métodos específicos, de maneira geral, os possíveis benefícios variam com a criança e a adaptação da prática, tais como melhora da coordenação entre respiração e movimento, fortalecimento muscular com desenvolvimento de um tônus muscular adequado à estrutura óssea da criança, desenvolvimento da concentração e ajuda no combate à ansiedade. A prática regular e adaptada dos asanas (posturas) pode favorecer a flexibilidade, sem garantir sua manutenção até a fase adulta. Os demais componentes da prática (exercícios respiratórios e meditação) podem contribuir para o desenvolvimento de uma maior estabilidade emocional, por exemplo, diante de frustrações, elementos distratores e escolhas. Um estudo controlado feito na clínica de psiquiatria e psicoterapia infantil da Universidade de Heidelberg (Alemanha) concluiu que o yoga apresentou resultados preliminares promissores como tratamento complementar para o TDAH [Nota editorial (2026-10-03): o piloto de Haffner et al. (2006) envolveu 19 crianças em desenho cruzado, com limitações de amostra, sequência e seguimento; não fundamenta indicação universal].4 Segundo os pesquisadores, o yoga, aliado à medicação, teve resultados superiores aos exercícios motores convencionais utilizados nesse pequeno piloto, sem comparação com todas as formas de atividade física.4 Num outro nível, o yoga prepara a criança para se perceber melhor. Ele amplia gradualmente a consciência de si mesma e do mundo. A partir da melhora da percepção do corpo, das sensações, da melhora do equilíbrio, da respiração, e posteriormente em níveis mais profundos, da estabilidade emocional, a criança passa a assumir uma relação mais harmônica e integrada com a realidade e cria uma base para um amadurecimento saudável e integrado. 7
Vários são os benefícios numa prática de Yoga, como: percepção do corpo e da mente, desenvolvimento da concentração, criatividade, imaginação, autoestima, equilíbrio, agilidade, autoconfiança, liberação e organização da energia muscular e mental, o que pode favorecer alívio interior, bem-estar e serenidade.
Com a prática, as crianças recebem e descobrem ferramentas que poderão auxiliá-las a superar e compreender os medos e os estados de ansiedade, de crescer com saúde física e mental, promovendo a tranquilidade, sem garantia de prevenir problemas posturais ou respiratórios.
Yoga versus hiperatividade

Um dos desafios que crianças com TDAH podem apresentar é a dificuldade de concentração. Embora possam frequentemente ser crianças com alto grau de inteligência, algumas podem apresentar dificuldades de autorregulação; alterações de percepção ou consciência corporal não definem todas as crianças com TDAH. É perceptível que essas crianças apresentam-se frequentemente inquietas e necessitam movimentar o corpo.8 Nesta concepção, o yoga pode ter um papel complementar, como prática complementar que pode favorecer atenção e bem-estar, conforme a criança e o acompanhamento.
Esta arte milenar visa, através de posturas físicas e do controle da respiração, a estabilização de mente e busca favorecer introspecção, autorregulação e bem-estar; isso não comprova que corrija um mecanismo central do TDAH ou garanta estabilidade psicológica.
Millene Romero e Paula Costa- graduandas do curso de medicina-FCS/UFGD-XIVa turma
Bibliografia:
¹Rohde LA, Mattos P. Princípios e práticas em TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade) Porto Alegre: Artmed; 2003. p236.
2Andrade, Ênio Roberto de. Indisciplinado ou hiperativo. Nova Escola, São Paulo, n. 132, p. 30-32, maio 2000
3Sampaio, Cyntia Meditação, Saúde e Healing in: Encontro Paranaense, Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais, XV,X, 2010 Anais Curitiba. CENTRO Reichiano, 2010 – Cd Rom ISBN – 978-85-87691-18-7 – Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos
4Lange KM, Makulska-Gertruda E, Hauser J, Reissmann A, Kaunzinger I, et al. (2014) Yoga and the Therapy of Children with Attention Deficit Hyperactivity Disorder. J Yoga Phys Ther 4: 168. doi:10.4172/2157-7595.1000168
5Costa Dias TG, Kieling C, Graeff-Martins AS, Moriyama TS, Rohde LA, Polanczyk GV.(2013) Developments and Challenges in the Diagnosis and Treatment of ADHD. Ver Bras Psiquiatr 2013;35(Suppl 1)doi: 10.1590/1516-4446-2013-S103
6Desidério RCS, Miyazaki MCOS. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH): Orientações para a Família. Ver Sem da Ass Bras de Psic Esc e Ed (ABRAPEE) Vol II n.I Jan/Jun 2007 p. 165-178.
7Packer L. Yoga para crianças, Trabalho de Conclusão de Curso de Formação de Yoga de Laura Packer. Joinville, 2011
8Stroh JB. TDAH – diagnóstico psicopedagógico e suas intervenções através da Psicopedagogia e as Arteterapia. Constr. Psicopedag. Vol.18 no.17 São Paulo dez. 2010.
