Texto escrito de Louise L. Lemos (Bolsista de Iniciação Científica Júnior / CNPq)*

O choro tem um papel importante na regulação das emoções, que envolve processos cerebrais e hormonais por trás dos sentimentos que desencadeiam essa ação, a partir de algum tipo de estímulo que nos chega, por exemplo, histórias comoventes, cenas tristes, reencontros emocionantes etc. Vamos tratar aqui da contribuição do sistema límbico no processo do choro, que funciona como uma rede de conexões cerebrais, sendo este sistema responsável por gerar, regular e manter a experiência emocional por um determinado tempo.

O choro

Quem nunca chorou com um filme? Exemplos como “Como eu era antes de você”, “A culpa é das estrelas” e “O menino do pijama listrado” mostram como histórias podem facilmente nos emocionar. 

O choro é uma linguagem universal, que mostra como estamos nos sentindo por dentro, mesmo quando faltam palavras. Talvez você já tenha escutado as frases “Chorar faz bem para a alma” e “A dor deve ser sentida”. Elas não estão erradas, já que, quando choramos, liberamos a tensão no corpo. Chorar não é sinal de fraqueza, mas uma reação do cérebro regulando emoções. Isso é explicado pela química do choro que envolve:

  • Endorfina: hormônio neurotransmissor que alivia a dor física, emocional e o estresse, sendo também liberada ao fazer atividade física.
  • Ocitocina: promotora de bem-estar e de sentimentos de confiança e de vínculo social afetivo. Ela também está envolvida no parto e na amamentação, e por isso é chamada de “hormônio do amor”.

Como o sistema límbico influencia as emoções?

O sistema límbico (SL) atua como uma orquestra de emoções, em que cada instrumento (estrutura) tem seu papel responsável por formar e regular as emoções, contendo a amígdala, área septal, giro do cíngulo, o hipocampo e a ínsula. Algumas áreas do cérebro ajudam a transformar as emoções em reações físicas, como batimentos acelerados, lágrimas ou arrepios. Sua função vai muito além de cuidar das respostas físicas e emocionais, sendo algumas delas:

  1. Regular o sistema nervoso autônomo, que cuida de reações involuntárias,  como a frequência cardíaca, a pressão arterial, a respiração e outras funções;
  2. gerenciar certas estruturas relacionadas com a memória e o aprendizado; 
  3. regular o sistema endócrino, que tem glândulas que produzem e liberam hormônios para o equilíbrio do corpo.

Sobre as estruturas do SL, é importante destacar que estudos recentes indicam que a amígdala pode modificar características de um sinal que foi recebido para transmitir uma informação emocional ligada à memória. Isso permite que a interpretação pessoal do mundo (crenças, memórias e sentimentos) se transforme, no nívek biológico, em experiências emocionais (em que uma informação gera uma resposta afetiva). Obviamente, não é só um fator biológico, havendo também implicações socioculturais importantes nesse processo.

A ínsula também influencia as respostas emocionais, sendo ativada quando uma pessoa lembra de momentos vividos, criando sensações específicas, seja de felicidade, tristeza, raiva ou alguma outra, tanto positiva quanto negativa. Ela possui várias funções, desde o processamento sensorial e afetivo até o processo de percepção e aprendizado. Também ajuda tanto na percepção de emoções pessoais quanto na percepção de emoções dos outros, tendo importante participação na formação da empatia. 

Mas é sempre importante lembrar que ela não faz tudo sozinha. Como já foi exposto, assim como as outras estruturas, ela trabalha de maneira complexa, integrando as conexões a outras áreas, sendo, assim, um trabalho cerebral em grupo.

O impacto de cenas ou histórias tristes no sistema límbico

O cinema e a literatura ativam em nós a empatia, por isso nossos sentimentos muitas vezes se alinham com a situação em que se encontram os personagens na trama. Lendo um livro ou assistindo a um filme, podemos chorar de tristeza quando nos conectamos com o sofrimento de um personagem, de desespero em cenas violentas e perturbadoras, de raiva ou frustração porque um personagem desprezível matou um personagem favorito ou de alegria caso tudo tenha dado certo no final.     

Um exemplo de como ocorre o processo de choro tem como responsável o hipotálamo, que regula e integra ações emocionais, como raiva e medo. Ele também coordena manifestações periféricas das emoções por meio de conexões com o sistema nervoso autônomo e envia sinais ao sistema endócrino, para as glândulas lacrimais. Essas manifestações periféricas são as respostas corporais que acompanham o estado emocional, como alterações na frequência cardíaca, sudorese, tensão muscular, dilatação das pupilas, calafrios, entre outras. As respostas são reguladas principalmente pelo sistema nervoso autônomo (SNA), que tem dois eixos:

  • Simpático: associado às respostas de luta ou fuga (taquicardia, aumento da pressão arterial, pupilas dilatadas, inibição de funções digestivas);
  • Parassimpático: relacionado ao relaxamento, à economia de energia e à recuperação fisiológica (quando há redução da frequência cardíaca, aumento da atividade digestiva e produção de lágrimas).

Quanto à amígdala, ela se comunica com o córtex cingulado anterior e o córtex orbital, ambos ligados à memória. Ela vai transformar experiências subjetivas (memória de acontecimentos vividos, emoções e crenças de uma pessoa) em experiências emocionais (resposta física e emocional com base num sinal enviado). Quanto às diferenças e funções dos córtices, vale destacar que o córtex cingulado anterior (ACC) é uma parte do cérebro que ajuda no controle das emoções e nos processos de pensamento e movimento, sendo dividido em três partes principais:

  1. pACC (cingulado anterior perigenual): que cuida do processamento das emoções e controla como o corpo reage a elas, tanto pelos hormônios quanto pelo sistema nervoso (como batimentos, suor e respiração).
  2. dACC (cingulado anterior dorsal ou cingulado médio): que ajuda na tomada de decisões, baseada em recompensa (como quando pensamos no que vale mais a pena escolher, no sentido de recompensa).
  3. CMA (áreas motoras cinguladas): que transformam as emoções e pensamentos em ações. Elas pegam informações, por exemplo, se estamos ansiosos ou calmos, e ajudam o cérebro a gerar movimentos, trabalhando junto com as áreas que controlam os músculos.

O córtex orbital (COF) é uma região do lobo frontal localizada acima das órbitas dos olhos (por isso o nome “orbital”), e é separado em:

  1.  Córtex orbitofrontal lateral: Relacionado à avaliação de punições, erros e situações que exigem mudança de comportamento.  Atua muito na inibição de respostas inadequadas.
  2.  Córtex orbitofrontal medial: Mais envolvido na avaliação de recompensas, prazer, valor emocional e na manutenção de comportamentos voltados ao que é positivo e satisfatório.
  3. Córtex orbitofrontal central (ou agranular): Envolve áreas de transição entre o medial e o lateral, com funções mistas, integrando tanto sinais de recompensa quanto de aversão, modulando a tomada de decisão contextual.

Resumindo tudo o que vimos, a empatia é o sentimento principal que vai desencadear todas as outras emoções que surgem quando assistimos a um filme ou lemos um livro. E, dependendo do motivo pelo qual podemos chorar, essas estruturas no SL enviarão um sinal que irá liberar as lágrimas, que carregam hormônios que aliviam dor ou estresse. Criando, assim, ainda mais conexão, seja pelos personagens ou com a história como um todo. 

REFERÊNCIAS:  

ALBUQUERQUE, Fabíola da Silva; SILVA, Regina Helena. A amígdala e a tênue fronteira entre memória e emoção. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, v. 31, n. 3 supl., 2009. Epub 26 maio 2010. DOI: 10.1590/S0101-81082009000400004. O registro aparece no SciELO como artigo de 2009, com o título em português e versão em inglês “Amygdala and the slight boundary between memory and emotion”.

UDDIN, Lucina Q.; NOMI, Jason S.; HÉBERT-SEROPIAN, Benjamin; GHAZIRI, Jimmy; BOUCHER, Olivier. Structure and function of the human insula. Journal of Clinical Neurophysiology, Philadelphia, v. 34, n. 4, p. 300-306, jul. 2017. DOI: 10.1097/WNP.0000000000000377. PMID: 28644199; PMCID: PMC6032992. O registro do PubMed/PMC confirma autoria, periódico, volume, número, paginação, ano e DOI.

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ESPERIDIÃO-ANTONIO, Vanderson; MAJESKI-COLOMBO, Marilia; TOLEDO-MONTEVERDE, Diana; MORAES-MARTINS, Glaciele; FERNANDES, Juliana José; ASSIS, Marjorie Bauchiglioni de; BATISTA, Rodrigo Siqueira. Neurobiologia das emoções. Revista de Psiquiatria Clínica, São Paulo, v. 35, n. 2, p. 55-65, 2008. DOI: 10.1590/S0101-60832008000200003. No SciELO, o artigo aparece também com o título em inglês “Neurobiology of the emotions”, classificado como revisão de literatura em Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo).

JUMAH, Fareed R.; DOSSANI, Rimal H. Neuroanatomy, Cingulate Cortex. In: STATPEARLS. Treasure Island: StatPearls Publishing, 2026. Last update: 6 Dec. 2022. Disponível em: NCBI Bookshelf, record NBK537077. Acesso em: 11 maio 2026. O NCBI Bookshelf informa os autores, o título, a obra StatPearls, a editora StatPearls Publishing, o local Treasure Island, além da atualização registrada em 6 de dezembro de 2022.

* O projeto NeuroTeen conta com o apoio da Olimpíada Brasileira de Neurociências (OBN). Apoio financeiro: CNPq (CH OLIMPÍADAS 2023. XII Olimpíada Brasileira de Neurociências Bolsas ICJ. Processo: 446140/2023-6. CNPQ – MCTI)

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