Letícia Tomacelli do Nascimento, Alfred Sholl-Franco, Glaucio Aranha [1]
A ansiedade é uma reação humana natural, presente em situações que envolvem preocupação, medo, incerteza ou sensação de ameaça. Ela pode surgir antes de uma prova, de uma apresentação oral, de uma conversa difícil ou de uma situação social em que a pessoa se sente avaliada. Em níveis moderados, essa reação pode ajudar o organismo a ficar mais atento e preparado. Entretanto, quando se manifesta de forma intensa, frequente ou desproporcional, interferindo no sono, nos estudos, nas relações sociais ou nas atividades cotidianas, pode constituir um sinal de sofrimento psicológico que merece atenção.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, os transtornos de ansiedade constituem os transtornos mentais mais frequentes durante a adolescência. Estima-se que afetem 4,1% dos adolescentes entre 10 e 14 anos e 5,3% daqueles entre 15 e 19 anos. Esta matéria busca discutir a ansiedade e algumas de suas relações com o funcionamento cerebral, lembrando que a informação científica pode contribuir para o reconhecimento de sinais de alerta, embora não substitua uma avaliação realizada por profissionais de saúde.
O cérebro adolescente e a regulação das emoções
Durante a adolescência, o cérebro continua reorganizando suas conexões. Entre os processos que participam desse desenvolvimento encontram-se a remodelação sináptica e a mielinização. De maneira simplificada, algumas conexões neurais são fortalecidas, outras são refinadas, enquanto a comunicação entre diferentes regiões cerebrais tende a se tornar mais rápida e integrada.
Essas transformações seguem ritmos variados e são influenciadas pelas experiências, pelo sono, pelo estresse, pelas relações sociais e pelas condições do ambiente. Redes que participam do processamento das emoções, da motivação e da identificação de situações relevantes, envolvendo estruturas como a amígdala e o estriado ventral, passam por mudanças durante esse período. Ao mesmo tempo, redes frontais envolvidas no planejamento, na avaliação das consequências, no controle das ações e na regulação emocional continuam se desenvolvendo.
Essas diferenças nas trajetórias de desenvolvimento ajudam a compreender por que provas, conflitos familiares, comparações sociais, exposição nas redes digitais e situações que envolvem o medo de rejeição podem ser vividas com intensidade por alguns adolescentes. Entretanto, o funcionamento do cérebro, isoladamente, não explicaria a ansiedade de cada pessoa, uma vez que fatores biológicos, psicológicos, familiares, escolares, sociais e culturais interagem continuamente.
Por que pode ser difícil estudar quando estamos ansiosos?
Quando é intensa ou persistente, a ansiedade pode dificultar a concentração e sobrecarregar a memória de trabalho, sistema que utilizamos para manter e organizar informações enquanto realizamos uma tarefa. Durante uma prova, por exemplo, parte da atenção pode ficar presa a pensamentos como “vou errar” ou “não vou conseguir”, restando menos recursos mentais para interpretar as questões e recuperar o conteúdo estudado.
Na prática, isso pode aparecer como “dar branco” em uma prova, reler o mesmo trecho várias vezes sem conseguir se concentrar, evitar apresentações, faltar a atividades ou sentir que qualquer escolha pode dar errado. Esses efeitos podem reduzir o engajamento escolar e as oportunidades de aprendizagem, principalmente quando o adolescente não encontra apoio para reconhecer e expressar o que está sentindo.
Estudos sugerem que a ansiedade pode influenciar a maneira como adolescentes avaliam riscos, recompensas e possíveis perdas. Em algumas situações, isso favorece a hesitação ou a evitação, especialmente quando uma escolha parece envolver a possibilidade de erro, crítica ou rejeição. Por essa razão, comportamentos que parecem “desinteresse”, “preguiça” ou “falta de esforço” podem, em alguns casos, estar relacionados a um estado persistente de alerta e preocupação.
Como a ansiedade pode afetar a vida cotidiana?
Na adolescência, a ansiedade persistente pode estar associada a prejuízos acadêmicos, sociais e de saúde, tanto no presente quanto a longo prazo. Ela pode vir acompanhada de dificuldades para dormir, irritabilidade, dores de cabeça, desconfortos abdominais, tensão muscular, cansaço e maior procura por serviços de saúde.
A ansiedade persistente também pode coexistir com problemas de sono, sintomas depressivos e outras formas de sofrimento psicológico. Cada adolescente apresenta uma trajetória particular, embora a presença de sintomas frequentes, intensos ou limitantes indique a necessidade de avaliação e cuidado, especialmente quando eles prejudicam a aprendizagem, as relações sociais, o descanso ou a sensação de segurança.
O que mostram os dados?
Estudos internacionais indicam que a ansiedade está entre os problemas de saúde mental mais frequentes durante a adolescência. Em escala global, a Organização Mundial da Saúde estimou que 359 milhões de pessoas viviam com algum transtorno de ansiedade em 2021, constituindo o grupo mais comum entre os transtornos mentais.
No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística com estudantes de 13 a 17 anos, mostrou que 28,9% dos escolares relataram sentir tristeza “na maioria das vezes” ou “sempre” nos 30 dias anteriores à pesquisa. Outros 42,9% disseram sentir-se irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer motivo com essa mesma frequência.
Embora alguns indicadores de saúde mental tenham apresentado melhora em comparação com a edição de 2019, os percentuais permanecem elevados, sobretudo entre as meninas. A PeNSE 2024 também mostrou que 27,2% dos estudantes relataram ter sofrido bullying duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa.
Esses números não permitem diagnosticar transtornos de ansiedade nos jovens participantes, pois descrevem sentimentos, experiências e comportamentos relatados em um questionário populacional. Entretanto, os resultados indicam que o sofrimento emocional e as relações construídas nos ambientes escolares precisam ser discutidos e acompanhados com atenção.
Como a escola pode ajudar?
Programas escolares estruturados podem ampliar o acesso ao cuidado e contribuir para a redução do estigma relacionado à saúde mental. A escola constitui um espaço estratégico, considerando que muitos adolescentes passam ali boa parte do dia, desenvolvendo vínculos, enfrentando avaliações e vivenciando conflitos entre pares.
Intervenções universais, destinadas ao conjunto dos estudantes, e intervenções seletivas ou direcionadas, voltadas para grupos que apresentam fatores de risco ou dificuldades já identificadas, podem fortalecer a conexão com a escola, as habilidades socioemocionais, o apoio entre pares, a prevenção ao bullying e o encaminhamento para profissionais de saúde mental.
Revisões de estudos sobre intervenções escolares encontram, em geral, pequenas reduções nos sintomas de ansiedade e depressão, observando resultados maiores em alguns programas direcionados a estudantes que já apresentam dificuldades. Os efeitos variam conforme a duração das ações, a preparação da equipe, o acompanhamento das atividades e a integração com os serviços de saúde.
Essas evidências sugerem que ações contínuas, planejadas e integradas às redes de educação, saúde e proteção social podem produzir benefícios coletivos. Os resultados da PeNSE 2024 também reforçam a necessidade de ampliar as condições de escuta e de apoio psicológico disponíveis aos estudantes brasileiros.
É possível identificar precocemente a ansiedade?
Pesquisadores vêm investigando como questionários, entrevistas clínicas e informações sobre sono, estresse, relações sociais e experiências escolares podem ajudar a reconhecer adolescentes com maior probabilidade de desenvolver ou manter sintomas de ansiedade.
Medidas relacionadas ao desenvolvimento e ao funcionamento cerebral também são estudadas. Entretanto, esses marcadores ainda possuem utilidade clínica limitada e não devem ser apresentados como exames capazes de prever, isoladamente, quem desenvolverá um transtorno de ansiedade. Estudos prospectivos indicam que informações psicológicas, comportamentais e contextuais continuam sendo fundamentais para compreender o risco de desenvolvimento de sintomas.
A identificação precoce depende principalmente da escuta qualificada, da avaliação profissional e da compreensão das condições em que o adolescente vive. A combinação entre acompanhamento psicológico, intervenções psicossociais baseadas em evidências, participação da família, políticas escolares de proteção e acesso a serviços de saúde pode reduzir o sofrimento atual e diminuir a probabilidade de persistência dos sintomas ao longo da vida.
Quando procurar ajuda?
Caso você se identifique com alguns dos sinais descritos, especialmente quando eles se tornam frequentes, intensos ou começam a limitar seus estudos, seu sono, suas relações ou suas atividades cotidianas, converse com um adulto de confiança e procure orientação profissional.
A escola, uma unidade de saúde, um psicólogo ou um médico podem ajudar a avaliar o que está acontecendo e indicar formas de acompanhamento. Buscar ajuda é uma maneira de reconhecer que o sofrimento merece cuidado. Quando houver sofrimento intenso ou uma situação de perigo imediato, procure prontamente um adulto responsável e um serviço de urgência.
Uma avaliação adequada pode ajudar a compreender as dificuldades vivenciadas e indicar estratégias de cuidado compatíveis com as necessidades de cada adolescente.
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[1] Todos os autores atuaram na escrita da matéria.
