Por Glaucio Aranha
Você já teve vontade de aprender um novo idioma, tocar um instrumento, cozinhar uma receita diferente, compreender melhor uma tecnologia ou retomar um projeto abandonado? Em algum momento, talvez tenha surgido também uma dúvida: será que meu cérebro ainda consegue aprender isso?
A resposta oferecida pelas neurociências tende a ser encorajadora. Ao longo da vida, o cérebro preserva a capacidade de modificar seu funcionamento em resposta às experiências, às aprendizagens e às demandas encontradas no ambiente. Essa propriedade recebe o nome de neuroplasticidade, designando um conjunto de processos por meio dos quais as conexões entre células nervosas, a atividade de determinadas redes e, em algumas circunstâncias, características mensuráveis da estrutura cerebral podem se transformar.
Embora a infância e a adolescência sejam períodos marcados por intensa reorganização do sistema nervoso, a plasticidade continua presente na vida adulta e no envelhecimento. Sua manifestação dependerá de vários fatores: natureza da experiência, frequência da prática, condições de saúde, conhecimentos anteriores, ambiente social e significado que determinada aprendizagem assume para cada pessoa (GALVÁN, 2010; LÖVDÉN et al., 2013).
Aprender deixa marcas
Quando aprendemos, algo se modifica na maneira como o cérebro processa, relaciona e recupera informações. Essas transformações podem envolver o fortalecimento ou o enfraquecimento de conexões sinápticas, a reorganização da atividade de redes cerebrais e alterações associadas à aquisição de habilidades específicas.
Um estudo desenvolvido por Draganki e colaboradores (2004) acompanhou adultos que aprenderam a realizar movimentos de malabarismo durante três meses. Exames de neuroimagem identificaram mudanças em regiões relacionadas ao processamento de movimentos visuais, sugerindo que a prática de uma habilidade até então desconhecida estava associada a modificações cerebrais detectáveis.
Em outra investigação, Woollett e Maguire (2011) acompanharam pessoas que se preparavam para se tornar motoristas de táxi em Londres. Para obter a licença profissional, esses candidatos precisavam memorizar uma extensa rede de ruas, trajetos e pontos de referência da cidade. Entre aqueles que concluíram a formação, foram observadas mudanças em uma região posterior do hipocampo, estrutura envolvida em diferentes processos de memória e orientação espacial.
Outro exemplo pode ser dado sobre a aprendizagem musical. Tocar um instrumento envolve integrar audição, movimento, atenção, memória, percepção temporal e regulação emocional, mobilizando diferentes redes cerebrais. Estudos com músicos e pessoas em treinamento, desenvolvidos por Herholtz e Zatorre (2012) mostraram que a experiência musical pode estar associada a mudanças funcionais e estruturais relacionadas às habilidades efetivamente praticadas.
Esses resultados sugerem que aprender significa, em alguma medida, produzir novas formas de organização da experiência, envolvendo não só o cérebro, mas também outras partes do corpo, a linguagem, a cultura e as relações sociais.
Plasticidade possui direção, contexto e limites
A ideia de que o cérebro pode mudar costuma despertar entusiasmo, embora também tenha dado origem a simplificações. A neuroplasticidade não significa que qualquer habilidade possa ser adquirida rapidamente ou que todas as pessoas responderão da mesma forma a determinado treinamento. Mudanças cerebrais dependem do tipo de atividade realizada e tendem a ser relacionadas às funções que foram mobilizadas durante a prática.
Aprender malabarismo, por exemplo, favorece principalmente os processos perceptivos e motores envolvidos nessa atividade. Estudar uma língua amplia conhecimentos linguísticos e comunicativos. Praticar um instrumento desenvolve habilidades auditivas, motoras e musicais. A transferência desses ganhos para competências muito distantes daquilo que foi treinado pode ocorrer em determinadas condições, embora não deva ser presumida automaticamente.
Também seria inadequado compreender qualquer mudança cerebral como sinônimo de melhoria geral. O cérebro se adapta às experiências que se repetem, incluindo hábitos produtivos, rotinas pouco estimulantes e respostas construídas em contextos adversos. Por essa razão, pensar a neuroplasticidade educacionalmente envolve perguntar quais experiências estão sendo oferecidas, com que frequência, em quais condições e com quais possibilidades de participação.
A plasticidade, portanto, amplia as possibilidades de desenvolvimento, enquanto as condições sociais, educacionais, emocionais e materiais continuam influenciando profundamente os caminhos disponíveis para cada pessoa.
O valor dos pequenos desafios
Uma aprendizagem capaz de mobilizar mudanças duradouras costuma envolver continuidade. O cérebro trabalha com aquilo que fazemos repetidamente, especialmente quando a atividade exige atenção, apresenta um desafio possível de ser enfrentado e recebe algum tipo de feedback.
Isso ajuda a compreender por que pequenos períodos de prática, distribuídos ao longo da semana, podem ser mais produtivos do que uma tentativa intensa e isolada. Quinze minutos diários de leitura em outro idioma, por exemplo, podem criar oportunidades recorrentes para reconhecer palavras, formular hipóteses, perceber regularidades e recuperar conhecimentos anteriores.
O mesmo princípio pode ser aplicado a diversas outras atividades. Uma pessoa que deseja desenhar, por exemplo, poderia começar observando e reproduzindo objetos simples. Alguém interessado em música poderia aprender uma sequência curta de acordes. Um estudante poderia dividir um conteúdo extenso em perguntas menores, retomando-as em dias diferentes. Um adulto mais velho interessado em tecnologia poderia explorar uma função por vez, registrando os passos e repetindo-os em situações reais.
Nesses processos, a dificuldade moderada possui uma função. Quando uma atividade é inteiramente automática, ela exige pouca reorganização. Quando se torna excessivamente difícil, pode produzir frustração e abandono. O desafio mais produtivo tende a situar-se em uma zona na qual a pessoa consegue avançar com esforço, apoio e possibilidade de correção.
Errar também forma o cérebro
Durante uma nova aprendizagem, o erro revela a diferença entre aquilo que esperávamos e o que efetivamente aconteceu. Essa diferença fornece informações que podem orientar ajustes posteriores. Ao pronunciar uma palavra incorretamente, perder o equilíbrio em um movimento, confundir uma etapa de uma receita ou escolher uma estratégia que não resolve um problema, a pessoa recebe sinais sobre o que precisa ser modificado. Quando existe feedback e oportunidade de nova tentativa, o erro participa do refinamento da habilidade.
Ambientes educacionais acolhedores favorecem esse processo porque permitem experimentar sem transformar cada tentativa em julgamento. Professores, familiares, colegas e mediadores podem contribuir oferecendo explicações específicas, reconhecendo progressos e ajudando a decompor desafios complexos em etapas possíveis.
Aprender junto também amplia as oportunidades de observar estratégias, formular perguntas e explicar o próprio raciocínio. Quando ensinamos algo a outra pessoa, precisamos organizar o que sabemos, identificar lacunas e encontrar formas de comunicação. Dessa maneira, a aprendizagem se desenvolve em redes biológicas e sociais, sendo sustentada pela participação em comunidades nas quais o conhecimento circula.
Neuroplasticidade: um convite para começar
A neuroplasticidade oferece uma mensagem positiva, desde que compreendida com equilíbrio, ou seja, nossas experiências continuam participando da organização do cérebro ao longo da vida, sempre dá para (re)começar. Embora a passagem do tempo produza algumas perdas biológicas, aquilo que fazemos com regularidade também contribui para definir alguns dos caminhos que serão fortalecidos.
Talvez um novo começo não precise assumir a forma de uma grande transformação. Ele pode começar com uma pergunta, uma página, uma aula, uma conversa, um movimento ou alguns minutos de uma determinada prática. Quando essas experiências encontram continuidade, significado e condições adequadas, elas podem produzir aprendizagens que se acumulam e se reorganizam, abrindo espaço para desafios maiores e níveis de dificuldade mais complexos.
Tendo em vista tudo isso, escolha algo que gostaria de aprender e pense no menor passo possível para iniciar, comece sempre em um nível confortável para você. Em seguida, repita esse passo, observe o que mudou e ajuste o percurso, sempre aumentando aos poucos a complexidade da atividade em que está se engajando. O cérebro aprende encontrando desafios, recebendo informações e construindo caminhos por meio da experiência. Assim, só resta saber agora, qual nova habilidade você gostaria de começar a cultivar hoje?
Referências
DRAGANSKI, Bogdan et al. Neuroplasticity: changes in grey matter induced by training. Nature, London, v. 427, n. 6972, p. 311-312, 2004. DOI: https://doi.org/10.1038/427311a.
GALVÁN, Adriana. Neural plasticity of development and learning. Human Brain Mapping, Hoboken, v. 31, n. 6, p. 879-890, 2010. DOI: https://doi.org/10.1002/hbm.21029.
HERHOLZ, Sibylle C.; ZATORRE, Robert J. Musical training as a framework for brain plasticity: behavior, function, and structure. Neuron, Cambridge, v. 76, n. 3, p. 486-502, 2012. DOI: https://doi.org/10.1016/j.neuron.2012.10.011.
LÖVDÉN, Martin et al. Structural brain plasticity in adult learning and development. Neuroscience and Biobehavioral Reviews, Oxford, v. 37, n. 9, p. 2296-2310, 2013. DOI: https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2013.02.014.
MAY, Arne. Experience-dependent structural plasticity in the adult human brain. Trends in Cognitive Sciences, Oxford, v. 15, n. 10, p. 475-482, 2011. DOI: https://doi.org/10.1016/j.tics.2011.08.002.
WOOLLETT, Katherine; MAGUIRE, Eleanor A. Acquiring “the Knowledge” of London’s layout drives structural brain changes. Current Biology, Cambridge, v. 21, n. 24, p. 2109-2114, 2011. DOI: https://doi.org/10.1016/j.cub.2011.11.018.
